Paciência

O amor. Os amigos. O trabalho. A academia. A família. O social. As contas. A música. A saúde. O estudo. A reforma. O blog. O carro. Os livros. O dinheiro. O sono, constante.

Censuro a imaginação, que me traz dias de 30 horas, pois me lembro que já está tarde, e dentro de 5 eu já estou acordado de novo. Atrasado, priorizando as coisas urgentes e tentando não esquecer as importantes.

“Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma. Até quando o corpo pede um pouco mais de alma. Eu sei, a vida não para. A vida não para não…”

Nana também protesta

Eu não acho que faça sentido que o sucesso de um protesto que começou sem apoio partidário declarado – em São Paulo ia contra interesses do prefeito do PT e do governador tucano – agora, depois de dar certo, seja redesenhado como conquista de algum deles. Mas daí a fazer manifestação dizendo que o povo não precisa de partidos políticos… há boa distância. O que povo precisa é saber votar.

Depois dos R$0,20 a PEC 37 parecia o próximo tópico na lista de prioridades. E sinto que quem há pouco tempo não sabia que ela existia também não percebeu que adiar não é uma vitória. Vitória é arquivamento. Adiar é guardar a chance de que isso volte em algum momento de menor mobilização ou quando as atenções de todos estiverem voltadas a outro assunto.

A PM anda mais bipolar que os telejornais. Ora é absurdamente violenta com gente de bem, ora lenta demais frente à ação de vândalos. Vândalos que às vezes parecem gente paga para desmoralizar atos pacíficos, mas em outros momentos se confirmam apenas bandidos oportunistas.

No meio disso tudo, tem também um monte de gente que está na #rua protestando sem saber bem o porquê. Mas ainda assim, em melhor posição que o Ronalducho e o Pelé, Debie e Lóide que são mais dignos calados. Mas se por um lado não dá para “esquecer os protestos e pensar na seleção”, será que adianta gritar agora que não queremos mais a Copa? Melhor receber os turistas, lucrar com o evento.

Bons passos para frente, mas outros tantos para trás. Para isto o Feliciano tem cura? Ainda está difícil de entender para onde o gigante está andando.

(Foto: reprodução)

 

“They heard me singing and they told me to stop

Quit these pretentious things and just punch the clock

Sometimes I wonder if the world’s so small

Can we ever get away from the sprawl?”

Às vezes eu acho que sim. Que independente das circunstâncias é possível sair da mediocridade e sonhar com coragem e ousadia. É o que eu acredito ao ver a luta de uma garota como a Malala, que sonha em ser médica e escreve um blog sobre a utopia que esse plano representa na vida de uma garota no Paquistão, em uma região do país onde meninas são proibidas de estudar e cenas de guerra são constantes. Malala faz a diferença, ganha visibilidade e me faz acreditar. Mas então vêm dois tiros, dentro do ônibus escolar.

Passado o susto, eu fico feliz por saber que apesar da violência absurda, ela se recupera bem. E penso que aquele canto do mundo é mesmo muito primitivo. Vejo uma sincronicidade interessante ao conhecer a Isadora, adolescente catarinense que também escreve e expõe um ponto de vista crítico sobre a vida de estudante em sua página no Facebook. Só que como ela vive no Brasil, os seus problemas são infinitamente menores, ainda que relevantes. São as salas de aula mal cuidadas, a quadra que não foi pintada. E aqui há liberdade de expressão. Mas então vêm as ameaças, as agressões verbais e as pedradas.

Can we ever get away from the sprawl? Às vezes eu acho que não.

“They’re screaming at us, “We don’t need your kind”

Sometimes I wonder if the world’s so small

That we can never get away from the sprawl

Living in the sprawl…”

(Foto: reprodução)

Em certa fase da infância eu devo ter vivido um leve transtorno obsessivo compulsivo que me fazia constantemente inventar superstições esquisitas, baseadas em fatos irrelevantes da minha rotina. Se eu não conseguisse bocejar voluntariamente em determinado momento, meu dia seria de tal forma. Se eu fechasse uma torneira e caísse um número ímpar de gotas, alguma coisa terrível poderia acontecer. Foi uma espécie de TOC avant garde, muito antes que eu soubesse que isto tem nome.

Um dia, por exemplo, a torneira gotejou e os pingos de água pararam de cair no momento errado. Na minha superstição infantil, aquilo significava que eu perderia um dos meus pais antes de me tornar adulto, certeza que me deixou desesperado de medo e culpa por pelo menos uma semana. Não entro no mérito da obsessão, porque além de não ser especialista no assunto ela é questão resolvida. Mas vejo que durante muito tempo, cogitar não ter meus pais ao meu lado parecia impossível. Eu sabia que morreria também.

Lembrei-me dessa historia ao pensar sobre como o distanciamento relativiza tudo. Quanto mais a vida segue, menos as coisas são eternas, seja para o bem ou para o mal. Nada é tão imprescindível, tão intransponível, tão fatal ou tão vital.

Para a minha sorte e dos meus pais, a previsão da torneira não se confirmou. Depois daquele dia todos ainda vivemos décadas sendo felizes e saudáveis. Apenas mais recentemente meu pai adoeceu e faleceu. E ainda que tenha sido triste, não foi o fim do mundo. Eu não desmoronei, eu continuo aqui. Não foi a gota d’água.

Uma percepção que foi refinada após esta perda foi a de como é importante de dar aos problemas a dimensão correta. Faz toda diferença saber que diversos assuntos merecem atenção e cuidado, mas poucos são dignos de ataques de ansiedade. Se uma das pessoas que eu mais gosto faleceu e eu consegui seguir em frente, outras pedras no caminho não passam de decoração na paisagem.

Uma pedra que já sumiu no horizonte da memória foi o TOC. Da mesma forma que veio, foi. Deve ter durado um ano no máximo. Pelo que me recordo, em algum momento eu passei a considerar tudo aquilo uma grande bobagem e deixei o assunto de lado. Não é assim para todo mundo, mas talvez para mim tenha sido simples pois as obsessões de uma mente infantil devem ser mais fáceis de abandonar. Ou de repente eu esteja relativizando tudo agora, minimizando meu primeiro momento de superação por conta do distanciamento do olhar adulto.

(Foto: reprodução)

Eu não era tão invencível como por vezes me sentia. Não era imune aos medos ou às pedras que surgiam no caminho. Mas prosseguia, superava os obstáculos, e estava sempre cheio de projetos, planos, coragem, sonhos, anseios.

Nunca deixei de me divertir. Talvez as formas de diversão fossem mudando, assim como os tipos de eventos freqüentados e os destinos de viagens. Mas ao lado das minhas companhias favoritas a sintonia era fina. Como diriam os Pet Shop Boys, “nunca estávamos entediados, pois nunca éramos chatos”.

Nem por isso o hedonismo era regra. Ali já era clara a noção de que o tempo passa rápido. E que se por um lado assustava não ter mais o mesmo pique dos 20 anos, encantava não ter mais as inseguranças que a vida provou serem bobas. Aos 30 já sabia que boa parte da realidade que me cercava dependia das minhas posturas, do meu olhar, da minha fé em mim mesmo e da minha capacidade de (re)agir.

Naquela época eu aquietei um pouco minha vontade de desbravar o mundo com uma mochila nas costas e optei por criar mais raízes. Passei a arquitetar minha vida profissional de forma mais clara, batalhei para crescer. E continuei estudando, continuei lendo, continuei curioso e interessado no que é novo, diferente e, aos meus olhos, instigante.

Era feliz. Não tinha mais meu pai, mas tinha me despedido dele em paz. E tinha minha irmã e minha mãe, que seguem lindas e saudáveis até hoje. Tão bem quanto meus amigos especiais, família estendida que eu reconheci no meu caminho. Enxergava algo de válido e encantador em cada relação vivida, afinal já naquele tempo minha fé não estava nas religiões, estava no amor.

Sabia bastante, imaginava outro tanto e ambicionava muito. Julgava ser esperto, inteligente, interessante. E apesar disso tudo, não era metade do que sou hoje.

Assim eu espero ver o que agora é presente ao olhar para trás no futuro. Com avaliação positiva, mas sem nostalgias. Afinal o melhor sempre estará por vir.

(Imagem: reprodução)

Um breve hiato ficcional.

Quando Júlia conheceu Edu a química foi instantânea, mas para ela foi só isso, pele, cheiro, saliva, encaixes. Teria esquecido o assunto no fim de semana seguinte e tudo acabaria por ali se ele não fosse persistente, se demonstrando disposto e encantado.

Partiram para um segundo encontro, e depois mais um. Inicialmente ela achava difícil dizer se começava a gostar dele ou se estava encantada pela forma como ele a enxergava. Ainda que não estivesse apaixonada, pesando na balança achou que valia ver no que aquilo poderia dar. Paixão é algo efêmero, ela já sabia disso. E paixão não se escolhe, mas talvez amor sim. E como o sexo era realmente bom, resolveu tirar a prova, descobrir se amor realmente podia ser algo construído nas afinidades aos poucos reveladas, na convivência, na descoberta do mundo do outro.

Por alguns anos deu certo, e conhecendo-o cada vez mais, Júlia pôde dizer olhando nos olhos do Edu, com sinceridade, que o amava. Via defeitos, notava descompassos, mas o admirava e quase sempre estava feliz ao seu lado. Divagava às vezes, porém, se aquele amor era recíproco, se o Edu nutria sentimento parecido ou era apaixonado por algo que idealizava.

Júlia nunca acreditou muito no destino, tendia a concordar com Simone de Beauvoir e crer que “o acaso sempre tem a última palavra”. Esse poderoso acaso no qual ela acreditava colocou Edu no seu caminho, e o mesmo acaso fez com que em certo momento ela passasse por uma fase bem difícil, com diversas esferas da sua vida sendo fontes de problemas, gerando tristeza, stress e sugando energia.

Nesse período, enquanto ela julgava ser imprescindível dividir sua atenção entre diversos problemas a solucionar, ele queria atenção exclusiva. Descompasso, discussões, distanciamento. O acaso atuou e tempo respondeu.

Edu colocou um ponto final na história, e fez todo possível para o quanto antes provar aos olhos de todos que estava bem, tinha novos amores e tinha virado a página. Júlia engoliu a seco, mas racionalizou consigo mesma que se aquele não era o cara com quem podia contar quando todo restante ia mal, aquele também não era o cara com quem ela ia aproveitar os dias excelentes que ainda estariam por vir.

Ela se prometeu não olhar mais para trás, mas vacilou e quando meses depois ele a procurou, ela aceitou. Tentou, mas viu que não, não era mais ali que estava a sua felicidade. Edu pediu, lamentou, chorou, como ela antes também havia chorado. Mas não adiantava mais, pois conforme o sentimento morria a razão falou de modo mais claro, e a Júlia entendeu que amor pode até ser construído, mas não deve ter base no efêmero.

Com o tempo cada um dos dois seguiu seu caminho, fechou suas feridas e abandonou suas mágoas. A ilusão acabou e a música deles não mais tocou. Mas ao sabor do acaso, outras histórias e outros encontros surgiram e ficou tudo bem.

(Imagem: reprodução)

Atormentada pela crise da idade avançada (que só dá as caras depois da festa mesmo), ela anoiteceu em pranto. Alternando lágrimas suaves que escorriam silenciosas com outras que caíam gordas e pesadas, tornou o fim do dia algo dramático e recluso.

Dentre seus conhecidos, gerou desconforto. Atrapalhou quem planejava aproveitar na rua a noite de calor, fez reconsiderar quem cogitava sair de casa sem precisar.

Mais uma vez, trouxe à vida os vendedores de guarda-chuvas, materializados em cada saída de metrô, a cada esquina. Não deu trégua, trazendo no fim de janeiro águas cantadas para março.

Insegura, duvidava que depois de tantos altos e baixos ainda fosse bela ou querida. E nesse questionamento úmido, não percebeu. Entre garoa e tempestade, se mostrou mais Sampa do que nunca. Intensa, pulsante, agridoce. Amada.

(*Texto escrito há exatos oito anos!)

(Imagem: Reprodução)

Em 2011 pratiquei o desapego. Não foi fácil. Na verdade diria que esse foi o pior ano da minha vida. Desapeguei na marra. Acho extremamente difícil deixar pra trás qualquer coisa da qual realmente goste, com a qual me importe. É difícil abrir a mão, soltar os dedos, deixar escapar, muitas vezes sabendo que o que parte não volta mais.

Nesse ano minha mão abriu à força. Comecei cancelando uma viagem para estar ao lado do meu pai no hospital, naquela que seria sua última passagem de ano, após sua terceira cirurgia contra o câncer que se espalhava pelo seu corpo. Como em um sorriso melancólico, eu entrei em 2011 feliz por estar ao lado dele, mas triste por sentir que aquele era o começo da nossa despedida. Simultaneamente, eu saí do meu último emprego fixo. Uma reestruturação na empresa fez com que o cartão de visitas onde se lia Gerente de Marketing deixasse de ter utilidade e a partir de então eu começasse a atuar como freelancer.

Nos oito meses seguintes meu pai esteve preso a uma cama e descobri que ser tutor legal de incapacitado é um atarefado trabalho não remunerado. Após o seu falecimento em agosto, percebi que inventário é um processo caro e demorado. E notei também que não crer em uma religião faz da superação da morte de alguém próximo responsabilidade única e exclusivamente minha.

Para completar, o namoro que começou lá no início de 2008 ia mal. Com a pressão exercida por todo o resto desandou de vez, e nenhuma das três tentativas de recomeço serviram para colar os cacos do que já estava quebrado.

No começo o espaço vazio deixado por tudo que acabou pareceu grande demais para ser preenchido. Foi doloroso. Com o tempo, porém, ele se mostrou uma oportunidade de recomeço. Como se depois de um terremoto eu parasse de olhar a destruição ao redor e notasse que escapei inteiro, me notasse vivo e de pé.

2011 me compeliu ao desapego e vivida a lição me sinto satisfeito ao deixá-lo, também, partir. Abrindo mão daquilo que foge ao meu controle sigo em frente livre, mas com uma bagagem emocional muito válida. Que venha agora 2012, mais renovador que qualquer outro ano, a ser aguardado em Copacabana de frente para o mar.

(Imagem/ilustração: reprodução)

De todos os quatro términos que tivemos, o último foi o único em que chorei durante a conversa, antes mesmo de me despedir. Pois foi o único em que a decisão foi minha, e eu sabia que era definitivo.

(Imagem: reprodução)

(* Atualização do texto que escrevi ano passado para o blog de marketing Além do Show.)

Desde que comecei a freqüentar baladas já tive vários clubes do coração, aqueles dos quais durante certo período fui cliente assíduo. Nessas fases, a identificação com a “minha” casa noturna era tão grande que eu me sentia a vontade até para aparecer por lá sozinho, sem combinar nada com ninguém. Ora porque estava mais interessado no som, no ambiente e nas novas companhias que surgiriam, ora porque sabia que as chances de cruzar amigos na pista eram enormes.

Acredito que essa relação emocional que nesses anos de vida adulta eu desenvolvi com certas baladas possui um paralelo bem direto com a devoção intensa que algumas marcas despertam em seus públicos. Conheço fiéis cujos olhos brilham diante dos logotipos da Apple, do Google ou da Prada. Em níveis mais intensos, é possível citar casos onde essa relação atinge caráter literalmente religioso. Na matéria de capa da revista Época Negócios do mês de janeiro (2010), por exemplo, o texto que trata da Nike menciona um estúdio de tatuagem americano que já gravou o logo da empresa na pele de mais de trinta pessoas.

Penso que esse tipo de conexão pode até ter seus elementos de sorte. No entanto, ponto indispensável nessas histórias é a existência em cada empreendimento de alguém com capacidade de identificar as aspirações do cliente e trabalhá-las, de forma que esse público se sinta profundamente sintonizado com as características que enxerga naquilo que consome. Assim, muita gente que compra Apple leva para casa inovação, design, modernidade. Enquanto isso, outros tantos saem das lojas da Prada com sacolas carregadas de exclusividade e status.

Voltando às referencias pessoais, das primeiras casas noturnas que adotei como minhas, lembro dos pontos marcantes de forma bastante sinestésica. Se por um lado detalhes sobre a tecnologia dos espaços e referências a estilos musicais ficaram datadas, por outro, a forma como eu me sentia naqueles lugares segue validando as escolhas. Lá eu era alguém pretensiosamente atualizado, informado, desbravando a tal cultura clubber sobre a qual eu lia na Folha de São Paulo, pertencente ao que acontecia de mais legal. Parte do que eu projetava ser, naquelas pistas eu encontrava. E cabe pontuar que isso ocorria não apenas por proatividade (ou viagem) minha, mas também pela iniciativa de algum empresário com o timming certo, capaz de indentificar bem um público potencial.

Com o tempo eu mudei, minhas aspirações mudaram e meus clubes do coração também. Tal qual em um ciclo de vida de produto, depois da maturidade veio o declínio. Por vezes lento, por vezes abrupto. Fato é que ao falar de algumas baladas, eu conseqüentemente me recordo de qual era naquela fase a minha música favorita, quais eram meus companheiros de noitadas, como estava a vida profissional, quem eu namorava, que livro lia, o que planejava…  Fazer parte da história de um cliente dessa forma é projeto que exige esforço, mas sua recompensa costuma ser bem rentável.

Marcio Ramos

Arquivos

Atualizações Twitter

%d blogueiros gostam disto: