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Tenho certa preguiça do que é constante demais. Pego bode. Quer coisa mais monótona que gente cujo universo gira sempre ao redor das mesmas coisas? Mesmas referências, pontos de vista, opiniões, gostos… um saco.
Pensei nisso após conversar por e-mail com uma prima que mora no exterior e me inspira sensações absolutamente opostas às descritas acima. Ela foi hippie, largou São Paulo para fazer trabalhos sociais em Goiás, militou para a esquerda, aprendeu inglês, esperanto e holandês, largou o Brasil para viver um grande amor, abandonou a política, se destacou trabalhando com TI em uma universidade européia. Em cinqüenta anos, um punhado de vidas dentro de uma só. E para o futuro, planos de se multiplicar em outras tantas existências possíveis.
Esses dias ela me escreveu contando de suas descobertas sobre bandas irlandesas e música celta. Aproveitou para perguntar o que ando ouvindo, pois está interessada em “ampliar horizontes musicais e saber mais do que rola por aí”. Em banda larga, amplificamos.
Coletar referências, selecionar o que importa, misturar tudo, acrescentar um ponto de vista e espremer. Até que goteje, na recita que o Cazuza nomeou: Veneno Anti-monotonia. Para tomar de uma vez feito um shot de tequila, mas tendo como conseqüência a inclinação lúcida a dar passos em novas direções em vez do entorpecimento. Minha prima provou e aprovou. Eu também.
Enquanto isso, para o que é constante demais e chato, sai essa receita e sobra a repetição do senso comum. Para embalar esse caso fico inclinado a voltar ao Cazuza, ainda que usando como trilha os versos de outra canção. Piedade senhor, piedade.
Metade das expressões que nascem em viagens de réveillon com amigos têm origem impublicável. Outra metade carrega uma história tão específica e detalhada por trás que é melhor manter como piada interna. Uma pequena parte é adicionada ao rol dos verbetes constantes da turma, fazendo outsiders boiarem em certas conversas. O destino da grande maioria delas, porém, é sumir do vocabulário depois de certo tempo.
You are uó foi embora. Mas daí dia desses reapareceu, prontamente ressuscitada a partir da caixa preta de 2006. E ainda que o cenário seja novo, a aplicação e a eficiência se mantêm.

Andei testando, passei adiante e me diverti com os resultados. Ao ouvir a expressão, logo de cara o interlocutor fica meio confuso com tanto som de vogal amontoado. Nem percebe que está sendo gongado. Dependendo do caso, convém explicar (com uma pronuncia mais pausada a pessoa já pesca o sentido). Contudo, em outras situações a graça da história está exatamente em deixar os esclarecimentos de lado e fazer da frase uma observação perceptível apenas a quem interessa. Afinal nem sempre a comunicação tem como objetivo a inclusão… não é?
Glen Close concorda.
