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(Foto: reprodução)

Eu não era tão invencível como por vezes me sentia. Não era imune aos medos ou às pedras que surgiam no caminho. Mas prosseguia, superava os obstáculos, e estava sempre cheio de projetos, planos, coragem, sonhos, anseios.

Nunca deixei de me divertir. Talvez as formas de diversão fossem mudando, assim como os tipos de eventos freqüentados e os destinos de viagens. Mas ao lado das minhas companhias favoritas a sintonia era fina. Como diriam os Pet Shop Boys, “nunca estávamos entediados, pois nunca éramos chatos”.

Nem por isso o hedonismo era regra. Ali já era clara a noção de que o tempo passa rápido. E que se por um lado assustava não ter mais o mesmo pique dos 20 anos, encantava não ter mais as inseguranças que a vida provou serem bobas. Aos 30 já sabia que boa parte da realidade que me cercava dependia das minhas posturas, do meu olhar, da minha fé em mim mesmo e da minha capacidade de (re)agir.

Naquela época eu aquietei um pouco minha vontade de desbravar o mundo com uma mochila nas costas e optei por criar mais raízes. Passei a arquitetar minha vida profissional de forma mais clara, batalhei para crescer. E continuei estudando, continuei lendo, continuei curioso e interessado no que é novo, diferente e, aos meus olhos, instigante.

Era feliz. Não tinha mais meu pai, mas tinha me despedido dele em paz. E tinha minha irmã e minha mãe, que seguem lindas e saudáveis até hoje. Tão bem quanto meus amigos especiais, família estendida que eu reconheci no meu caminho. Enxergava algo de válido e encantador em cada relação vivida, afinal já naquele tempo minha fé não estava nas religiões, estava no amor.

Sabia bastante, imaginava outro tanto e ambicionava muito. Julgava ser esperto, inteligente, interessante. E apesar disso tudo, não era metade do que sou hoje.

Assim eu espero ver o que agora é presente ao olhar para trás no futuro. Com avaliação positiva, mas sem nostalgias. Afinal o melhor sempre estará por vir.

(Foto: Reprodução)

Reguei as plantas da garagem e saí. Congestionamentos mais tarde, já no centro espírita, fui encaminhado por uma recepcionista a uma ante-sala, onde um simpático senhor me indagou sobre a minha razão para estar ali. Parei e pensei.

Em um nível mais superficial, simplesmente recebi o convite de uma amiga e aceitei. Mas isso não era resposta nem para mim, quanto mais para ele. Tive então o impulso de dizer que sempre fui aberto a novas informações e que me interesso por todos os credos (ainda que não tenha intenção de seguir algum em especifico). Refletindo melhor, porém, concluí que no meio de uma fase em que tantas coisas se transformam na minha vida eu me vejo mais aberto a possibilidades que tragam algo de positivo. Ando mais inclinado a buscar novos estímulos, diferentes perspectivas, conteúdo inédito. Foi isso que me levou ao ritual xamânico com ayahuasca na semana anterior, era a razão para estar ali no centro espírita. Indo mais além, vi que foi essa também uma das motivações para que eu minimizasse minha presença em baladas e deixasse de lado os excessos que muitas vezes às acompanham.

Falei, e como bom interlocutor, ele atentamente escutou. Dando continuidade ao papo, ele lembrou que a maioria dos visitantes chega até àquele espaço empurrado pela dor, que poucos são motivados pela curiosidade ou pela busca consciente por algum tipo de aprimoramento. Conversamos sobre história, textos sagrados, física, e meia hora passou sem sentir. Finalizando a entrevista, recebi algumas indicações de livros, fui convidado a retornar mais vezes e a tomar um passe antes de ir embora. Aceitei.

Como eu imaginava, o ritual do passe é algo simples, rápido e um tanto teatral. Mas a sensação foi boa. Deixei a sala com a alma leve, efetivamente segui paz. Fosse conseqüência do passe ou da boa conversa que o precedeu, achei tudo bastante válido.

Ao chegar em casa, olhei ao meu redor. Sem que eu me desse conta, o cuidado com as plantas do jardim voltara a fazer parte da minha rotina. Fora isso, os carros estavam limpos e as gavetas do quarto, novamente organizadas. Da mesma forma que partiram, pequenas doses de disciplina e ordem voltaram à cena. Se a abertura ao novo sinaliza uma fase mais centrada e saudável, que esse seja o rumo a tomar.

Photo: Gregory Colbert / Reprodução

Há pouco mais de uma semana rascunhei um post onde escrevia sobre seguir em frente. No bloco de papel ensaiei parágrafos sobre como aprendi a fazer dos elementos que me inspiram forças maiores do que as eventuais tristezas, minimizando dificuldades e olhando adiante. Orgulhosamente discorri sobre minha capacidade de superar feridas, sobre como tento encarar da melhor forma possível a atual luta do meu pai contra a metástase de um tumor. Falei sobre minha aversão a lamentações, mesmo que por vezes isso faça com que eu seja visto como frio e distante.

Deixei para finalizar o texto no dia seguinte, mas acabei o abandonando pois um telefonema de segunda-feira chuvosa fez todas as palavras perdessem o sentido. Morreu um amigo querido, foi a notícia. Desorientou-me o pensamento, as reflexões pareceram bobas, e ainda que tenha meu formato muito particular de crenças, me tomou o vazio, o silêncio. Até agora.

Raramente escrevo sobre a dor. Prefiro outros tópicos não por necessidade de fugir, mas porque raramente colocar sofrimento em texto me ajuda a exorcizar. O meu exorcismo é o choro, o abraço, o recolhimento. Ali está o fundo do poço no qual mergulho nesses momentos e do qual aprendi a sair da única maneira que conheço: me agarrando às bordas até ter forças para escalar e retornar à superfície. Sobre isso sei escrever. A vontade de levantar, superar, renascer.

Na última vez que encontrei o Rafinha ele me presenteou com uma bela camiseta. Ainda que não precisasse, ele decidiu me trazer uma lembrança de aniversário tardia, pois na data da minha festa ele não estava em São Paulo, não pôde comparecer. No dia do seu enterro minha agenda de trabalho estava atarefada, mas eu a deixei de lado e fui me despedir. Não quis com isso retribuir seu último presente, mas sim celebrar as lembranças boas que ele me deixou no tão curto tempo de convívio que tivemos. Diante do caixão coloquei-me a prova, afirmando mentalmente que ele não era aquele corpo frio e sem vida. Ele era era (e é) o bairro arborizado de Curitiba que eu desconhecia, o cuidado que recebi quando passei mal na balada, a companhia leve com bom gosto para jóias. Assim como o Lucas, outro amigo que partiu muito cedo, ele é parte de tudo que me faz bem. Não apenas passado, mas futuro. É o próximo dia que verei amanhecer na praia, o próximo encontro com grandes amigos, a próxima música na qual ficarei viciado.

Há muito tempo li um texto (perdi a referência, sorry) que dizia que “a morte não existe, tudo que existe é vida”. Hoje isso faz total sentido porque é isso que me motiva, sobre isso que escrevo. Falo sobre a beleza que emana de cada pessoa querida, esteja ela presente ou não. Hoje eu celebro a vida.

Lendo textos sobre religiosidade e ateísmo recordei de algo que escrevi há tempos. Puxando do baú um post do blog antigo, vi que algumas coisas mudaram no meu ponto de vista e decidi atualizar o conteúdo. Com reloads e (espero) algumas evoluções, minhas novas ponderações seguem abaixo.

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APRENDI A REZAR. Aprendi o Pai Nosso, o Credo, a Ave Maria. Aprendi que o anjo da guarda protege, que Deus escuta os bons e castiga os pecadores. Aprendi a confessar e a comungar.

APRENDI A PERGUNTAR. Porque a igreja está sempre em descompasso com a razão? Porque essa religião se julga melhor que a outra? Porque as religiões separam as pessoas em grupos se seus fundamentos e ideais são parecidos?

APRENDI A RECONFIGURAR. Longe das respostas prontas de quem precisa de certezas e não quer parar para pensar. Encontrando novas perguntas. Na possibilidade de ser feliz sem ser parte de rebanho. Na busca de aprendizado positivo e reflexão.

Acredito mais em física quântica do que em religião. Dou crédito às descobertas da razão e às dúvidas que ela levanta. Talvez mais agnóstico que ateu, duvido de tudo que é desconhecido. Se há a parte positiva de cada escritura considerada sagrada, espero que ela esteja presente na minha vida apenas como repertório e inspiração. No meu altar mental figuram Jesus, Buda, Shiva e também Betinho, Da Vinci, Madonna, Bowie, Aristóteles, meus pais.

Aposto pouco nas religiões. Aposto no que elas dizem hoje o mesmo que apostaria nas explicações que há séculos ligavam trovões à ira divina e períodos menstruais a possessões diabólicas. Acho mais cabível a hipótese de um criador que também é parte da criação, parte de tudo que existe. Que está em seres vivos, planetas, componentes químicos, quarks. Parte de uma energia constantemente mutável, da qual tudo vem e para a qual tudo volta. Presente em tudo o que já existiu e segue existindo, em constante transformação. Nessa linha de pensamento às vezes divago, cogitando se o “amai-vos uns aos outros” não poderia representar nada mais que fazer o bem para uma coisa da qual também sou parte. No fim, tudo amor próprio? Pode ser, mas não tenho certeza.

Simplificando ao máximo, em momentos que não tenho saco para explicar isso tudo, resumo a história. Digo apenas que acredito no amor. Não poderia ser mais sincero.

Marcio Ramos

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