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Foto: reprodução

Dia desses eu estava cruzando o transito da Berrini em fim de tarde, sentado no banco de passageiro ao som de um álbum antigo do Guns ‘n Roses. Como quem decidia a trilha sonora era o dono do carro e fã da banda, evitei dar muito pitaco sobre o assunto, até porque uma faixa ou outra da banda ainda me agradam. Lá pela quinta faixa do álbum, porém, o motorista amigo comentou os shows da turnê recente da banda e pontuou com idéia que me desconcertou. Arrematou o assunto dizendo que “música boa mesmo era a dos anos 80, afinal quem é adolescente hoje em dia não sabe o que é bom de verdade”.

Meses antes, fui inserido no mailling do reencontro da velha turma do colégio. Papo vai papo vem, uma inevitável sessão nostalia veio à tona e em certo momento de empolgação, uma ex-colega convocou todos à visitar o revival de uma antiga matinê, daquelas que há quinze anos me empolgavam com seus hits euro-dance, turbinadas com pipoca e guaraná. Hein?

Em ambas situações acima descritas, eu não poderia ter me sentido menos conectado. No carro, convenientemente me esquivei de um confronto de opiniões lembrando apenas que tudo é relativo, e cada época tem sua trilha sonora. Na sequência de e-mail-revivals, ignorei o convite da balada, lembrando com sinceridade e educação que eu não poderia comparecer aos reencontros por estar viajando no período.

Agi assim pois por mais que o passado tenha tido seus momentos incríveis, eu só acho válido olhar para trás quando busco inspiração para algo novo e diferente. Quando se trata de viver eu sempre prefiro o hoje e o amanhã. Se já acho melancólico ver gente na terceira idade relembrar histórias começando as frases com “no meu tempo…”, considero inconcebível notar algo similar em pessoas com menos de quarenta. Se eu decido começar uma frase com essa expressão, eu me sinto obrigado a continuar falando do que li na internet há 20 minutos, discorrendo sobre mídias sociais, cool hunting, detalhando planos profissionais, listando músicas baixadas, o novo treino da academia, tagarelando a respeito do próximo livro, da festa de hoje. Esse é meu tempo.

Em que momento as pessoas decidem se desconectar e sentar à margem das mudanças? Não sei. Acho isso intrigante, porque ao contrário do que muitos demonstram, minhas referências continuam sendo construídas diariamente. Hoje diferente de ontem e também de amanhã. Do Guns ‘n Roses fico apenas com a minha curiosidade sobre seu recente álbum solo do Slash, e de euro-dance fico com as inspirações batidas no liquidificador e servidas no último single da Lady GaGa, Alejandro.

Na época do movimento hippie a norma no universo alternativo dizia que não se deve confiar em ninguém com mais de trinta anos. De lá para cá muita coisa mudou no mundo e mesmo a contracultura que jogou esse pensamento no inconsciente jovem envelheceu. Sobrou como resquício o peso nominal dessa idade redonda, que segue ecoando e ao chegar ainda causa certa angústia em muita gente.

Aos vinte anos virar um trintão me parecia uma realidade bastante distante, no entanto como muita gente diz, num piscar de olhos o tempo correu. É incrível constatar como a última década passou rápido, afinal muita coisa do começo dos anos 2000 segue fresca na memória, parece que aconteceu ontem.

Cada festa, cada paixão, cada trabalho. Cada despedida, cada partida, cada retorno. Cada passo adiante, cada tropeço, cada recomeço. Tudo marcou e foi revelante, tornando o ciclo que fecho uma fase das mais importantes. Tudo o que passou me trouxe onde estou, fazendo pertinente adaptar citação do Depeche Mode e afirmar: tudo importou em grandes quantidades.

É divertido recapitular e estou certo de que poderia escrever um livro apenas recordando os momentos mais interessantes do tempo que correu. Apesar disso, ando preferindo tomar o passado como repertório e lição assimilada, chegando aos trinta sem um pingo de nostalgia. Sinto-me muito mais motivado a olhar para frente, viver o presente, colher resultados do que plantei e planejar o futuro.

Os desafios profissionais me estimulam, nesse campo planos para os próximos dez anos não faltam. A família e os amigos queridos seguem sendo meu porto seguro, partes de mim que reconheço pelo caminho e espelham quem sou. O amor também completa aniversários, cresce e me recarrega com doses de veneno antimonotonia. E o autoconhecimento, a autoconfiança e a autoestima conquistadas são direito adquirido, dão base para todo resto, são ponto de partida para muito mais.

E quando rola um período tudo-ao-mesmo tempo agora? E quando acontecem coisas maravilhosas balanceadas por uma ou outra bem chata? E quando o peso e a maravilha de ser gente grande pega de jeito? Não sei se é consenso mas com o carnaval prestes a dar as caras, já dá para opinar: o ano chegou bombando.

Para começar, volto a assunto que teve prévia no post anterior e que agora aceita sequência. Em menos de um mês conquistei uma ótima nova posição profissional, atuando como gerente de marketing no segmento de tecnologia. Da minha área de formação posso dizer que entendo, mas business intelligence é um universo completamente diferente e desafiador. Estou passando por período de imersão, aprendendo e adorando.

Alinhada à nova perspectiva profissional, surgiu a possibilidade de atuar como colaborador em um blog focado em comunicação, eventos e marketing. A quem interessar, o primeiro de diversos posts que pretendo subir na página está aqui.

Em oposição às alegrias acima citadas, pontos negativos teimaram em aparecer também. Semana passada finalmente concluí o curso que tomava todas minhas noites semanais e parte dos meus finais de semana. A idéia era estar preparado para uma prova mega concorrida que rolou no último domingo. Tentei, mas infelizmente não foi dessa vez.

Potencializando o revés na empolgação, minha idosa cadela de estimação passou metade do mês doente. Visitou trocentos veterinários, fez meia dúzia de exames e por fim acabou sendo operada para extração de um tumor enorme. Agora se recupera bem. Com a preocupação que tomou conta de todos humanos dela, gritou nas entrelinhas o quanto ela é parte da família.

Em meio à ups e downs, o movimento adiante foi a única constante. Fato é que continua valendo a pena ousar e abraçar projetos que se alinham aos meus objetivos. Mesmo quando eles surgem em momentos inusitados e me deixam, momentaneamente, esgotado. “Minha palavra favorita é MAIS.” Li essa no blog da Erika Palomino recentemente e resolvi incorporar. Na verdade a palavra dela deixou de ser essa, mas valeu o insight. Não tenho pudor de ser esponja e seletivamente absorver o que me parece interessante ao redor. Gostei  da tirada pois é perfeita em tempos onde não rola ser prolixo. De tudo que é bom quero muito mais, ainda tenha como certo que existirão momentos ruins e que eles eventualmente trarão problemas que estão além do meu controle.

“You can’t always get what you want (no) / But if you try sometimes you just might find / You get what you need…”

promenadechagallTenho certa preguiça do que é constante demais. Pego bode. Quer coisa mais monótona que gente cujo universo gira sempre ao redor das mesmas coisas? Mesmas referências, pontos de vista, opiniões, gostos… um saco.

Pensei nisso após conversar por e-mail com uma prima que mora no exterior e me inspira sensações absolutamente opostas às descritas acima. Ela foi hippie, largou São Paulo para fazer trabalhos sociais em Goiás, militou para a esquerda, aprendeu inglês, esperanto e holandês, largou o Brasil para viver um grande amor, abandonou a política, se destacou trabalhando com TI em uma universidade européia. Em cinqüenta anos, um punhado de vidas dentro de uma só. E para o futuro, planos de se multiplicar em outras tantas existências possíveis.

Esses dias ela me escreveu contando de suas descobertas sobre bandas irlandesas e música celta. Aproveitou para perguntar o que ando ouvindo, pois está interessada em “ampliar horizontes musicais e saber mais do que rola por aí”. Em banda larga, amplificamos.

Coletar referências, selecionar o que importa, misturar tudo, acrescentar um ponto de vista e espremer. Até que goteje, na recita que o Cazuza nomeou: Veneno Anti-monotonia. Para tomar de uma vez feito um shot de tequila, mas tendo como conseqüência a inclinação lúcida a dar passos em novas direções em vez do entorpecimento. Minha prima provou e aprovou. Eu também.

Enquanto isso, para o que é constante demais e chato, sai essa receita e sobra a repetição do senso comum. Para embalar esse caso fico inclinado a voltar ao Cazuza, ainda que usando como trilha os versos de outra canção. Piedade senhor, piedade.

Marcio Ramos

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