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(Imagem: reprodução)

(* Atualização do texto que escrevi ano passado para o blog de marketing Além do Show.)

Desde que comecei a freqüentar baladas já tive vários clubes do coração, aqueles dos quais durante certo período fui cliente assíduo. Nessas fases, a identificação com a “minha” casa noturna era tão grande que eu me sentia a vontade até para aparecer por lá sozinho, sem combinar nada com ninguém. Ora porque estava mais interessado no som, no ambiente e nas novas companhias que surgiriam, ora porque sabia que as chances de cruzar amigos na pista eram enormes.

Acredito que essa relação emocional que nesses anos de vida adulta eu desenvolvi com certas baladas possui um paralelo bem direto com a devoção intensa que algumas marcas despertam em seus públicos. Conheço fiéis cujos olhos brilham diante dos logotipos da Apple, do Google ou da Prada. Em níveis mais intensos, é possível citar casos onde essa relação atinge caráter literalmente religioso. Na matéria de capa da revista Época Negócios do mês de janeiro (2010), por exemplo, o texto que trata da Nike menciona um estúdio de tatuagem americano que já gravou o logo da empresa na pele de mais de trinta pessoas.

Penso que esse tipo de conexão pode até ter seus elementos de sorte. No entanto, ponto indispensável nessas histórias é a existência em cada empreendimento de alguém com capacidade de identificar as aspirações do cliente e trabalhá-las, de forma que esse público se sinta profundamente sintonizado com as características que enxerga naquilo que consome. Assim, muita gente que compra Apple leva para casa inovação, design, modernidade. Enquanto isso, outros tantos saem das lojas da Prada com sacolas carregadas de exclusividade e status.

Voltando às referencias pessoais, das primeiras casas noturnas que adotei como minhas, lembro dos pontos marcantes de forma bastante sinestésica. Se por um lado detalhes sobre a tecnologia dos espaços e referências a estilos musicais ficaram datadas, por outro, a forma como eu me sentia naqueles lugares segue validando as escolhas. Lá eu era alguém pretensiosamente atualizado, informado, desbravando a tal cultura clubber sobre a qual eu lia na Folha de São Paulo, pertencente ao que acontecia de mais legal. Parte do que eu projetava ser, naquelas pistas eu encontrava. E cabe pontuar que isso ocorria não apenas por proatividade (ou viagem) minha, mas também pela iniciativa de algum empresário com o timming certo, capaz de indentificar bem um público potencial.

Com o tempo eu mudei, minhas aspirações mudaram e meus clubes do coração também. Tal qual em um ciclo de vida de produto, depois da maturidade veio o declínio. Por vezes lento, por vezes abrupto. Fato é que ao falar de algumas baladas, eu conseqüentemente me recordo de qual era naquela fase a minha música favorita, quais eram meus companheiros de noitadas, como estava a vida profissional, quem eu namorava, que livro lia, o que planejava…  Fazer parte da história de um cliente dessa forma é projeto que exige esforço, mas sua recompensa costuma ser bem rentável.

Foto: reprodução

Dia desses eu estava cruzando o transito da Berrini em fim de tarde, sentado no banco de passageiro ao som de um álbum antigo do Guns ‘n Roses. Como quem decidia a trilha sonora era o dono do carro e fã da banda, evitei dar muito pitaco sobre o assunto, até porque uma faixa ou outra da banda ainda me agradam. Lá pela quinta faixa do álbum, porém, o motorista amigo comentou os shows da turnê recente da banda e pontuou com idéia que me desconcertou. Arrematou o assunto dizendo que “música boa mesmo era a dos anos 80, afinal quem é adolescente hoje em dia não sabe o que é bom de verdade”.

Meses antes, fui inserido no mailling do reencontro da velha turma do colégio. Papo vai papo vem, uma inevitável sessão nostalia veio à tona e em certo momento de empolgação, uma ex-colega convocou todos à visitar o revival de uma antiga matinê, daquelas que há quinze anos me empolgavam com seus hits euro-dance, turbinadas com pipoca e guaraná. Hein?

Em ambas situações acima descritas, eu não poderia ter me sentido menos conectado. No carro, convenientemente me esquivei de um confronto de opiniões lembrando apenas que tudo é relativo, e cada época tem sua trilha sonora. Na sequência de e-mail-revivals, ignorei o convite da balada, lembrando com sinceridade e educação que eu não poderia comparecer aos reencontros por estar viajando no período.

Agi assim pois por mais que o passado tenha tido seus momentos incríveis, eu só acho válido olhar para trás quando busco inspiração para algo novo e diferente. Quando se trata de viver eu sempre prefiro o hoje e o amanhã. Se já acho melancólico ver gente na terceira idade relembrar histórias começando as frases com “no meu tempo…”, considero inconcebível notar algo similar em pessoas com menos de quarenta. Se eu decido começar uma frase com essa expressão, eu me sinto obrigado a continuar falando do que li na internet há 20 minutos, discorrendo sobre mídias sociais, cool hunting, detalhando planos profissionais, listando músicas baixadas, o novo treino da academia, tagarelando a respeito do próximo livro, da festa de hoje. Esse é meu tempo.

Em que momento as pessoas decidem se desconectar e sentar à margem das mudanças? Não sei. Acho isso intrigante, porque ao contrário do que muitos demonstram, minhas referências continuam sendo construídas diariamente. Hoje diferente de ontem e também de amanhã. Do Guns ‘n Roses fico apenas com a minha curiosidade sobre seu recente álbum solo do Slash, e de euro-dance fico com as inspirações batidas no liquidificador e servidas no último single da Lady GaGa, Alejandro.

Bye bye 2009. Nesse ano, de todas as áreas da minha vida, apenas o coração não passou por turbulências, reveses e incertezas. O amor foi um porto seguro onde algumas (poucas) ventanias tiveram apenas resultados positivos. Do resto, digo que foi o ano mais heterogêneo dos últimos tempos.

Ao meu redor muita coisa mudou. Comecei o ano em Sidney, viajei para a Tailândia, fiz pit-stop na Nova Zelândia, retornei ao Brasil. No exterior fiquei a maior parte do tempo solteiro, aqui termino quase casado. Lá morei em apartamento dividido com vários gringos, aqui passei a me dividir entre casa da cara metade e a da família. A família em questão mudou. Segue saudável, mas agora com papai em uma casa e mamãe em outra. O trabalho com eventos na Oceania ficou para trás e cedeu lugar a uma vida de freelas instáveis.

Se do lado de fora tudo virou do avesso, internamente eu pouco mudei e muito amadureci. Em certos sentidos posso dizer que atingi uma plenitude que sempre busquei. Começarei 2010 com grandes projetos, focado em novas conquistas. O ano novo será brindado com champagne e sorriso no rosto, debaixo dos fogos no céu do Rio de Janeiro.

Findado o balanço pessoal, fecho o post com uma retrospectiva sonora. A música sempre permeia minhas recordações, e dessa vez não poderia ser diferente. After all, music is still my hot hot sex.

Lista de sons que me marcaram em 2009, sem ordem específica, e com link do video no youtube:

The xx – Shelter
Um dos incríveis momentos presentes num álbum bom de cabo a rabo. Faixa sutil e suave, ora melancólica e contemplativa, ora sexy. Combina com praia, domingo chuvoso, sexo, alongamento… deve ser o novo preto. Testada e aprovada.

Kid CuDi – Pursuit of Happiness (Feat. MGMT And Ratatat)
Um dos melhores artistas do hip-hop de hoje em faixa que conta com a participação dos hypados MGMT e Ratatat. Underground meets mainstream, perseguindo a felicidade com belas rimas.

Telefon Tel Aviv – You Are The Worst Thing In The World
Fazendo contraponto à felicidade acima mencionada, impossível não citar aqui ao menos uma faixa do maravilhoso Immolate Yourself, último trabalho lançado antes do fim precoce do Telefon Tel Aviv. Momento (talvez) mais alto de álbum triste, introspectivo e moderno. Eletrônico que passa longe das pistas, mas mira certeiro na emoção.

Shakira – She Wolf (Villains Remix)
Jamais imaginei que algum dia Shakira soaria cool. Divertida, vez ou outra, sim. Cool, jamais. Com esse remix, porém, eu fiquei livre de toda culpa por ouvi-la. Se fosse possível amputar o vocal deste electro em que os Villains transformaram She Wolf, a faixa seria um dub perfeito na pista. Como não é, dá pra dizer que se trata de um sonzinho kitsch e safado, no bom sentido.

Jay Z – Empire State of Mind (feat Alicia Keys)
Paixão à primeira vista. Curto malhar ao som dessa música, ouvindo Jay Z versar sobre a beleza agridoce de Nova Iorque. Alternando-se a ele, Alicia Keys melodicamente quebra tudo no refrão, que fica ainda mais belo na versão ao vivo. A faixa encerrou o VMAs de 2009 e abre o trailer de Sex & The City 2.

Fever Ray – Triangle Walks (Tiga 1-2-3-4 Remix)
Ainda que esse ano o The Knife não tenha apresentado novidades, o universo sombrio da banda andou super bem representado. A metade feminina da dupla tomou a blogosfera de assalto, sob pseudônimo, mas com sua mesma voz encantadoramente estranha. Ter faixa da sueca remixada pelo Tiga fez com que ambos fossem presenças constantes nos meus playlists. Pela mesma razão, Triangle Walks agora aparece aqui, com duplo merecimento. O que seria de 2009 sem um remix do meu DJ favorito? Cinco minutos de letra obscura e ritmo pesado, de deixar o pezinho batendo ansioso no chão ao acompanhar.

The Gossip – Heavy Cross
O primeiro álbum do Gossip a sair por uma grande gravadora é mais pop que os anteriores, mas não por isso menos interessante. Beth Ditto segue visceral, e isso dá todo sentido à sua gritaria (fica a dica para muitas cantoras de bate-cabelo). Se não rolar a mesma flopada da vez anterior, a banda estará por aqui no ano que vem, no mês do meu aniversário. Já sei onde pretendo comemorar. (PS: Tão bons quanto a faixa original são os remixes do Yuksek e do Fred Falke.)

Gui Boratto – No Turning Back
Seguindo na mesma linha de Beautiful Life, essa faixa do último álbum do produtor brasileiro é ensolarada. Minimal alegre para ninguém botar defeito, agrada até quem acha que eletrônico (quase) sem vocal é tudo igual.

David Guetta – When Love Takes Over (feat Kelly Rowland)
Hit bombadíssimo nas rádios FM e nas pistas mais pop, para ter ignorado esse som só sendo surdo. Admito que esse ano David Guetta subiu bem no meu conceito, já que andava em baixa por aqui desde um set sem graça num Skol Beats da vida. Subiu também nos rankings de todos, visto que lançou álbum lotado de parcerias estreladas, criou outro mega hit com o Black Eyed Peas e fecha a temporada produzindo a Madonna. When Love Takes Over é recomendável inclusive nos remixes do Laidback Luke, do Arno Cost e do Abel Ramos.

Edward Sharpe and The Magnetic Zeros – Home
Zapear por blogs musicais é vício, já comentei aqui. Numa não rara madrugada insone, descobri essa música, um coutry pop lindo de doer. Perfeito para cantar junto enquanto dirijo.

Lady GaGa – Bad Romance (Grum Remix)
Sinceramente? Acho a versão original meia boca, apesar de ter um videoclipe incrível. O sorriso só pinta mesmo no rosto ao ouvir o remix do Grum, cheio de synths vindos direto dos 80’s, colocando na música o tempero do qual sentia falta. Lady GaGa foi onipresente em 2009 e provou para mim que é possível ser bem feio e, ainda assim, ícone pop de primeira.

Bag Raiders – Shooting Stars (Kris Menace Remix)
Morri de saudades da Austrália esse ano, mas apesar (ou por causa) disso sons vindos de lá estiveram super presentes nas minhas trilhas sonoras. Citar todos me obrigaria a criar uma nova lista regida só por esse tema. Como não é a intenção, agrupo os Cut Copys, Van Shes, Presets e afins sob o guarda-chuvas desse som, que me faz pensar com carinho em Sydney (com dois Y, como eu conheci).

Cold War Kids – Audience of One
A última vez que prestei atenção em algo da banda foi quando Hang Me Up To Dry bombou na blogosfera, lá no começo de 2007. Na época achei o som interessante, mas bem menos marcante que a faixa atual. Cadenciada, crua, gostosa de ouvir sozinho, ainda que digna de audiências bem maiores.

Outras menções honrosas:
Coeur De Pirate – Comme Des Enfants (Le Matos Andy Carmichael Remix)
Hot Chip – Take It In
Lily Allen – Not Fair
Miami Horror – Sometimes [video lindo!]
Røyksopp – This Must Be It (feat Fever Ray) (Thin White Duke Remix)
Van She – (Don’t Fear) The Reaper
The Temper Trap – Sweet Disposition
Glee Cast – Don’t Stop Believing
Phoenix – Fences
Chromeo – I Can’t Tell You Why
Sébastien Tellier – L’amour Et La Violence (Allure Remix)
Lady GaGa – Paparazzi (Stuart Price Remix)
Adele – Make You Feel My Love [é de2008 mas eu ouvi muito esse ano]
Tiga – Love Don’t Dance Here Anymore
Massive Attack – Paradise Circus (feat Hope Sandoval)
Zoot Woman – Saturation
Rihanna – Hard (Feat. Young Jeezy)
Deluxe – Everything Counts (Depeche Mode Cover) [Versão no piano presente em álbum latino. Diz que a letra ficou meio cagada, sinceramente não prestei atenção. A melodia e a voz estão lindas.]
Ladyhawke – Magic (The Swiss Remix)
M83 – Run Into Flowers (Midnight Fuck Remix By Jackson)
Delorean – Deli
La Roux – Quicksand (Mad Decent Remix)
Calvin Harris & Soulsearcher – Can’t Get Alone (Dirty South Bootleg)
Major Lazer – Keep It Goin’ Louder (feat. Ricky Blaze & Nina Sky) (Diplo Remix)

 

É um vício.

Se fico a toa, sem algo interessante ou importante para fazer, com acesso a uma conexão de banda larga, não resisto. É mais forte que eu. Quando percebo já sucumbi.

Começa de forma discreta. Pode ser através de uma zapeada no Hype Machine ou no Elbows, um clique na sessão de blogs de música do meu reader. Fato é que quando noto passaram-se horas, e a quantidade de megabites baixados se multiplicou em progressão geométrica.

musica_adict_by_BlarlockDias em que me embriago de um único estilo musical. Aprofundo me em uma única discografia ou danço entre artistas relacionados…

Dias em que misturo tudo. Termino entorpecido pelo coquetel que vai do minimal ao maximal, do synth pop ao samba, do funk carioca ao jazz…

Dias em que abro páginas e mais páginas no browser. Se uma página não carrega bem em um navegador tento outro, uso até três simultaneamente. Óbvio, já chegou a travar…

Dias em que fico em uma única página e destrincho todos os arquivos enviados. Uma pena que postagens mais antigas muitas vezes estejam indisponíveis…

Quando passo por um longo período offline, desencano do assunto. Deixo que meus fones circulem por playlists quase abandonadas e fico satisfeito com sons já escutados. Acabo surpreendido, afinal do fundo do iPod afloram trilhas sonoras para qualquer momento possível. Basta porém restabelecer a conexão para que o meu vício por novas faixas e versões volte a superfície e a farta disponibilidade de acordes e bpms me inebrie.

Talvez minha cura estivesse em uma rehab silenciosa. Mas só de pensar em uma vida menos musical eu digo não, não e não.

Marcio Ramos

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