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(Foto: reprodução)

Eu não era tão invencível como por vezes me sentia. Não era imune aos medos ou às pedras que surgiam no caminho. Mas prosseguia, superava os obstáculos, e estava sempre cheio de projetos, planos, coragem, sonhos, anseios.

Nunca deixei de me divertir. Talvez as formas de diversão fossem mudando, assim como os tipos de eventos freqüentados e os destinos de viagens. Mas ao lado das minhas companhias favoritas a sintonia era fina. Como diriam os Pet Shop Boys, “nunca estávamos entediados, pois nunca éramos chatos”.

Nem por isso o hedonismo era regra. Ali já era clara a noção de que o tempo passa rápido. E que se por um lado assustava não ter mais o mesmo pique dos 20 anos, encantava não ter mais as inseguranças que a vida provou serem bobas. Aos 30 já sabia que boa parte da realidade que me cercava dependia das minhas posturas, do meu olhar, da minha fé em mim mesmo e da minha capacidade de (re)agir.

Naquela época eu aquietei um pouco minha vontade de desbravar o mundo com uma mochila nas costas e optei por criar mais raízes. Passei a arquitetar minha vida profissional de forma mais clara, batalhei para crescer. E continuei estudando, continuei lendo, continuei curioso e interessado no que é novo, diferente e, aos meus olhos, instigante.

Era feliz. Não tinha mais meu pai, mas tinha me despedido dele em paz. E tinha minha irmã e minha mãe, que seguem lindas e saudáveis até hoje. Tão bem quanto meus amigos especiais, família estendida que eu reconheci no meu caminho. Enxergava algo de válido e encantador em cada relação vivida, afinal já naquele tempo minha fé não estava nas religiões, estava no amor.

Sabia bastante, imaginava outro tanto e ambicionava muito. Julgava ser esperto, inteligente, interessante. E apesar disso tudo, não era metade do que sou hoje.

Assim eu espero ver o que agora é presente ao olhar para trás no futuro. Com avaliação positiva, mas sem nostalgias. Afinal o melhor sempre estará por vir.

Foto: arquivo pessoal / Por de sol no Leblon num dos primeiros dias de 2006

Não tem vontade, não faça e ponto. Nunca faça nada que você não quer. Foi o que o amigo disse há vários anos e gravei como um dos mantras a serem revisitados quando pertinente. Tal qual segue.

O feriado em Sampa prometia. Muitos conhecidos e amigos de fora estavam para chegar à cidade. O roteiro de festas oferecia uma seqüência de noites badaladas (tardes e manhãs também) e o meu nome em algumas listas restritas já garantia de antemão algumas regalias. Mas eu dispensei.

Aparentemente tomando uma decisão sem muito fundamento, peguei o carro e sozinho segui pela Dutra rumo ao Rio. Dei de cara com o Redentor encoberto por nuvens, em céu que durante toda estadia transitou entre nublado e chuvoso. Sem colocar o pé na areia, acordei tarde todos os dias e peguei apenas duas baladas, nenhuma delas muito cheia.

Pode parecer que nada disso faz sentido. Mas era exatamente disso que eu precisava.

Não queria estar em São Paulo e por isso parti. Ainda que o feriado aqui prometesse reencontro com vários amigos, incluía cruzar constantemente com gente que eu não tinha interesse em ver. Além disso, na outra ponta da estrada o Rio surgia no horizonte como um saudável intervalo nas preocupações com a saúde do meu pai.

Fui. Ao volante, bem acompanhado pelo ar condicionado glacial e por boa música. Em Ipanema, recepcionado pelo amigo-irmão das antigas. E na pista, rodeado por novos amigos que fizeram de festas não tão bombadas diversão garantida. Mais que evitar o que não gosto, só fiz o que quis.

Photo: Gregory Colbert / Reprodução

Há pouco mais de uma semana rascunhei um post onde escrevia sobre seguir em frente. No bloco de papel ensaiei parágrafos sobre como aprendi a fazer dos elementos que me inspiram forças maiores do que as eventuais tristezas, minimizando dificuldades e olhando adiante. Orgulhosamente discorri sobre minha capacidade de superar feridas, sobre como tento encarar da melhor forma possível a atual luta do meu pai contra a metástase de um tumor. Falei sobre minha aversão a lamentações, mesmo que por vezes isso faça com que eu seja visto como frio e distante.

Deixei para finalizar o texto no dia seguinte, mas acabei o abandonando pois um telefonema de segunda-feira chuvosa fez todas as palavras perdessem o sentido. Morreu um amigo querido, foi a notícia. Desorientou-me o pensamento, as reflexões pareceram bobas, e ainda que tenha meu formato muito particular de crenças, me tomou o vazio, o silêncio. Até agora.

Raramente escrevo sobre a dor. Prefiro outros tópicos não por necessidade de fugir, mas porque raramente colocar sofrimento em texto me ajuda a exorcizar. O meu exorcismo é o choro, o abraço, o recolhimento. Ali está o fundo do poço no qual mergulho nesses momentos e do qual aprendi a sair da única maneira que conheço: me agarrando às bordas até ter forças para escalar e retornar à superfície. Sobre isso sei escrever. A vontade de levantar, superar, renascer.

Na última vez que encontrei o Rafinha ele me presenteou com uma bela camiseta. Ainda que não precisasse, ele decidiu me trazer uma lembrança de aniversário tardia, pois na data da minha festa ele não estava em São Paulo, não pôde comparecer. No dia do seu enterro minha agenda de trabalho estava atarefada, mas eu a deixei de lado e fui me despedir. Não quis com isso retribuir seu último presente, mas sim celebrar as lembranças boas que ele me deixou no tão curto tempo de convívio que tivemos. Diante do caixão coloquei-me a prova, afirmando mentalmente que ele não era aquele corpo frio e sem vida. Ele era era (e é) o bairro arborizado de Curitiba que eu desconhecia, o cuidado que recebi quando passei mal na balada, a companhia leve com bom gosto para jóias. Assim como o Lucas, outro amigo que partiu muito cedo, ele é parte de tudo que me faz bem. Não apenas passado, mas futuro. É o próximo dia que verei amanhecer na praia, o próximo encontro com grandes amigos, a próxima música na qual ficarei viciado.

Há muito tempo li um texto (perdi a referência, sorry) que dizia que “a morte não existe, tudo que existe é vida”. Hoje isso faz total sentido porque é isso que me motiva, sobre isso que escrevo. Falo sobre a beleza que emana de cada pessoa querida, esteja ela presente ou não. Hoje eu celebro a vida.

Muito escrevi para meu pai, mas poucas vezes escrevi sobre meu pai. Em um primeiro momento essa discrição deveu-se às diferenças que tivemos durante a minha adolescência. Depois, talvez, à simples falta de hábito. Tempos passados. Hoje nos damos muito bem, e cabe colocar em prosa um pouco do significado dele na minha vida.

Sinônimo de dedicação, trabalho, inteligência e comedimento. Antônimo de desapego, desinformação e, em outros tempos, emotividade. Sujeito de períodos que pretendo por muitos anos seguir escrevendo em todos os tempos verbais. Vocativo bastante presente nas minhas orações. Substantivo multi-adjetivável, para o qual encontro cada vez mais características de conotação positiva.

Este homem responsável por cinqüenta por cento da minha carga genética não me alfabetizou ou deu aulas de literatura, mas ainda assim me sinto livre para dizer que foi ele quem me ensinou a ler. Se desde cedo me habituei à idéia de que para entender o mundo cultura e repertório são coisas importantes, sou grato a ele. Cresci tendo como regra vê-lo correr o olho por jornais e revistas todas as manhãs. Nas horas vagas, não era raro pegá-lo também diante de um livro, fosse um romance ou texto técnico. Dele recebi exemplos marcantes, em um cotidiano que fez de mim um adulto curioso e razoavelmente antenado.

Hoje leio por diversão. Leio para me manter informado. Leio por ser pretensioso e desejar ser mais culto. Leio porque em instantes de solidão opcional um texto bem redigido é ótima companhia. Leio, pois nas esperas intermináveis em ante-salas de consultórios tenho desculpa para me entreter com matérias fúteis sobre celebridades instantâneas. Leio pela intenção de assimilar o máximo possível de textos complexos e assim melhorar um pouco a qualidade do que escrevo.

Já que falar do meu pai é discorrer sobre aprendizado, faço isso tentando brincar um pouco com metalinguagem. Ao misturar o que penso sobre o poder da palavra escrita com o que ele me ensinou, transformo sintaxe e semântica nas minhas peças de Lego. Com elas ouso construir o que a imaginação permite, cogitando histórias, cartas e divagações. Ao escrever sobre meu pai junto minhas peças de brinquedo na intenção de criar um dos mais belos retratos.

Lendo textos sobre religiosidade e ateísmo recordei de algo que escrevi há tempos. Puxando do baú um post do blog antigo, vi que algumas coisas mudaram no meu ponto de vista e decidi atualizar o conteúdo. Com reloads e (espero) algumas evoluções, minhas novas ponderações seguem abaixo.

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APRENDI A REZAR. Aprendi o Pai Nosso, o Credo, a Ave Maria. Aprendi que o anjo da guarda protege, que Deus escuta os bons e castiga os pecadores. Aprendi a confessar e a comungar.

APRENDI A PERGUNTAR. Porque a igreja está sempre em descompasso com a razão? Porque essa religião se julga melhor que a outra? Porque as religiões separam as pessoas em grupos se seus fundamentos e ideais são parecidos?

APRENDI A RECONFIGURAR. Longe das respostas prontas de quem precisa de certezas e não quer parar para pensar. Encontrando novas perguntas. Na possibilidade de ser feliz sem ser parte de rebanho. Na busca de aprendizado positivo e reflexão.

Acredito mais em física quântica do que em religião. Dou crédito às descobertas da razão e às dúvidas que ela levanta. Talvez mais agnóstico que ateu, duvido de tudo que é desconhecido. Se há a parte positiva de cada escritura considerada sagrada, espero que ela esteja presente na minha vida apenas como repertório e inspiração. No meu altar mental figuram Jesus, Buda, Shiva e também Betinho, Da Vinci, Madonna, Bowie, Aristóteles, meus pais.

Aposto pouco nas religiões. Aposto no que elas dizem hoje o mesmo que apostaria nas explicações que há séculos ligavam trovões à ira divina e períodos menstruais a possessões diabólicas. Acho mais cabível a hipótese de um criador que também é parte da criação, parte de tudo que existe. Que está em seres vivos, planetas, componentes químicos, quarks. Parte de uma energia constantemente mutável, da qual tudo vem e para a qual tudo volta. Presente em tudo o que já existiu e segue existindo, em constante transformação. Nessa linha de pensamento às vezes divago, cogitando se o “amai-vos uns aos outros” não poderia representar nada mais que fazer o bem para uma coisa da qual também sou parte. No fim, tudo amor próprio? Pode ser, mas não tenho certeza.

Simplificando ao máximo, em momentos que não tenho saco para explicar isso tudo, resumo a história. Digo apenas que acredito no amor. Não poderia ser mais sincero.

bombo5Intervalo na reta quase constante, flashbacks de um passado sempre presente, fechamento de um ciclo para início de nova etapa. Três momentos distintos que coincidem num espaço curto de tempo. Emoções que se cruzam e resultam numa revolução de sentimentos e sensações.

Para começar, o hiato. Depois de seis meses de namoro-casamento surge uma semana de recesso. Nada de drama ou briga. Apenas férias, um lá e outro cá. “Moderno” e “inconcebível”, chegou a utilizar como adjetivo quem avaliou olhando de fora. “Adulto”, respondi eu, com o respaldo da maturidade que ensinou a agir como gente grande para viver uma relação de verdade.

Junto desse intervalo, veio um reencontro. Doze anos de amizade e quase dois anos de distância física. Cotidianos que se cruzam com dificuldade em uma fase onde os endereços se alternam entre Sidney, São Paulo e Rio de Janeiro. Um final de semana foi pouco para inúmeros updates, risadas sinceras e assuntos adultos, modernos e inconcebíveis. O tempo escorreu rápido, consolando com a certeza de que muito ainda está por vir.

Simultâneo a isso tudo, veio o marco de uma nova fase. Seria apenas a continuidade de uma história que já se desenvolve belamente há algum tempo, não fosse a oficialização dessa relação vir marcada por uma festa de arromba. Sempre me lembrarei do casamento de uma das minhas melhores amigas conferido do altar, como padrinho. Felicidade presenciada em seu estado puro e brindada com o melhor champagne em noite emocionante.

Três histórias fundidas em uma só. Facetas do que sinto orgulho de reconhecer como meu. Verdades frescas na mente, capazes de transformar a segunda-feira nublada, com olheiras que denunciam a noite virada na insônia, em dia irretocável.

tibet1

Sexta-feira, comecinho da noite. Diante daquela pequena multidão na qual me incluía o inglês do mestre tibetano (com tradução simultânea para quem precisasse) desenvolvia gradativamente o tópico da reunião. Minha atenção tendia a zero, culpa de um stress que rolou minutos antes. A situação me fez pensar no quanto emoções mal ordenadas por vezes nos levam para longe, roubando momentos importantes. Em um esforço de racionalização, eu me forcei a deixar de lado a irritação que dominava a minha mente e foquei no instante presente, na razão de estar naquele anfiteatro lotado dentro da Unifesp. Não foi em vão.

Em sintonia com o exercício de concentração que eu acabara de praticar, a apresentação de Mingyur Rimpoche tratava do poder que a mente de cada ser humano tem de gerar felicidade, saúde e bem estar. Esbanjando simpatia o palestrante falou por quase duas horas sobre o alinhamento que enxerga hoje entre ciência e práticas baseadas em filosofias milenares. Detalhou estudos de neurociência dos quais participa como voluntário nos Estados Unidos e explicou como a meditação, exercício que já o ajudou a superar crises de síndrome do pânico na juventude, é capaz de potencializar o auto-conhecimento. Mais adiante abriu ainda espaço para perguntas da platéia, onde quebrou a solenidade das questões com brincadeiras e metáforas do cotidiano.

Como disse a sala estava lotada e, além disso, a ausência de um ar condicionado decente fez a temperatura do espaço subir consideravelmente. Nada disso, porém, impediu que todos continuassem por lá até o final da reunião e deixassem a sala com os horizontes um pouco mais amplos.

Note to self: Conhecer o Tibet antes que o rolo compressor chinês esmague tudo.

Marcio Ramos

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