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Ilustração: Banksy/ Reprodução

Hoje o ditador do Egito caiu e na prática isso pouco muda minha vida, pouco afeta minha rotina. Talvez pouco importe.

O meu cotidiano paulistano é exatamente o mesmo. Continuo buscando um emprego novo já que saí recentemente do anterior onde não estava feliz. Meu pai segue preso a uma cama, rodeado de enfermeiros, entupido de remédios e com seqüelas da sua última cirurgia. Meu namoro, que virou passado no último mês de setembro, voltou a ser presente. E nesse segundo ato sigo feliz desde o dia de Natal.

O Egito é National Geographic, Cleópatra, “fazer a egípcia”. É o rio Nilo, o deserto, são as pirâmides em um oriente médio distante. Correto? Incompleto, eu diria. O Egito é isso e um pouco mais. Falta mencionar também que de lá veio a Sabrina, a garota mais querida que conheci na Austrália. Esse é o país que ela me convidou a visitar um dia, ficando hospedado na casa da sua família e tendo-a como guia turística. É a nação sobre a qual ela me falou empolgada, contando de artistas locais, de pessoas comuns que ela conhece, detalhando regiões pouco acessíveis aos visitantes tradicionais, pontos que um dia ele pretende me mostrar.

Muito crítica, minha amiga jamais pintou sua terra natal como um país perfeito, e entre os vilões de suas histórias Mubarak sempre ocupou posição de destaque. Hoje ela comemora essa página virada, esperando que dias mais felizes surjam no horizonte.

Há algumas horas o ditador do Egito saiu de cena depois de trinta anos no poder. E, repensando, isso faz o meu dia bem mais feliz.

Photo: Gregory Colbert / Reprodução

Há pouco mais de uma semana rascunhei um post onde escrevia sobre seguir em frente. No bloco de papel ensaiei parágrafos sobre como aprendi a fazer dos elementos que me inspiram forças maiores do que as eventuais tristezas, minimizando dificuldades e olhando adiante. Orgulhosamente discorri sobre minha capacidade de superar feridas, sobre como tento encarar da melhor forma possível a atual luta do meu pai contra a metástase de um tumor. Falei sobre minha aversão a lamentações, mesmo que por vezes isso faça com que eu seja visto como frio e distante.

Deixei para finalizar o texto no dia seguinte, mas acabei o abandonando pois um telefonema de segunda-feira chuvosa fez todas as palavras perdessem o sentido. Morreu um amigo querido, foi a notícia. Desorientou-me o pensamento, as reflexões pareceram bobas, e ainda que tenha meu formato muito particular de crenças, me tomou o vazio, o silêncio. Até agora.

Raramente escrevo sobre a dor. Prefiro outros tópicos não por necessidade de fugir, mas porque raramente colocar sofrimento em texto me ajuda a exorcizar. O meu exorcismo é o choro, o abraço, o recolhimento. Ali está o fundo do poço no qual mergulho nesses momentos e do qual aprendi a sair da única maneira que conheço: me agarrando às bordas até ter forças para escalar e retornar à superfície. Sobre isso sei escrever. A vontade de levantar, superar, renascer.

Na última vez que encontrei o Rafinha ele me presenteou com uma bela camiseta. Ainda que não precisasse, ele decidiu me trazer uma lembrança de aniversário tardia, pois na data da minha festa ele não estava em São Paulo, não pôde comparecer. No dia do seu enterro minha agenda de trabalho estava atarefada, mas eu a deixei de lado e fui me despedir. Não quis com isso retribuir seu último presente, mas sim celebrar as lembranças boas que ele me deixou no tão curto tempo de convívio que tivemos. Diante do caixão coloquei-me a prova, afirmando mentalmente que ele não era aquele corpo frio e sem vida. Ele era era (e é) o bairro arborizado de Curitiba que eu desconhecia, o cuidado que recebi quando passei mal na balada, a companhia leve com bom gosto para jóias. Assim como o Lucas, outro amigo que partiu muito cedo, ele é parte de tudo que me faz bem. Não apenas passado, mas futuro. É o próximo dia que verei amanhecer na praia, o próximo encontro com grandes amigos, a próxima música na qual ficarei viciado.

Há muito tempo li um texto (perdi a referência, sorry) que dizia que “a morte não existe, tudo que existe é vida”. Hoje isso faz total sentido porque é isso que me motiva, sobre isso que escrevo. Falo sobre a beleza que emana de cada pessoa querida, esteja ela presente ou não. Hoje eu celebro a vida.

Há semanas ando ruminando textos que os dedos anseiam por digitar, mas que a correria da vida off web não permitiu escrever. Nessa fase de posts mais escassos, assunto não faltou. O que minguou foi o tempo livre, aliado a uma má organização que fez com que eu deixasse o blog um pouco de lado. Hoje retorno disposto a corrigir o lapso, abençoado pelo calor que venceu o sono e fez com que eu tardasse a trocar o laptop pelo travesseiro.

Pra falar de tópicos tão dispares quanto os que se seguem, separo as idéias em itens. A forma mais rápida (preguiçosa) e pratica de organizar esse meu zeitgeist pessoal:

- Andei abraçando novos desafios. Decidi repaginar a vida acadêmica, através de um mergulho intensivo em curso voltado a uma área completamente nova. Mais adiante caberão maiores detalhes sobre os objetivos. Por hora vale lembrar que, com carga horária capaz de dominar todas as noites da semana e período integral dos sábados, as aulas tornaram minhas baladas eventuais atos de suprema ousadia.

- Vi meu lado profissional dar passos à frente (finalmente!). À fase de freelas foi adicionado um ciclo de processos seletivos bem interessantes. Essa movimentação toda culminou em uma sintonia de interesses, vaga e remuneração, e resultará em uma nova etapa. Fase regada à dedicação e amadurecimento à vista.

- Vivi um flashback da morte de um amigo ao ler sobre o falecimento da simpática hostess-performer de festa da qual sou habitué. O assunto já foi comentado por um monte de gente, mas a sensação de dejavu ficou. No passado tive o preconceito de achar que esse tipo de tragédia só atingia gente descontrolada e junkie, mas aprendi da pior forma que assim também se perde pessoas interessantes, intensas, talentosas. A equação da responsabilidade dos donos de festa com a moderação do party people não fechou.

- Apesar dos contras, sorri. E dessa maneira encarei a chegada de 2010. Fugindo da ducha de champagne, sob os fogos do Rio de Janeiro e na melhor das companhias. Descontada a separação australiana, lá vai um ano de namoro. Parece que começou ontem.

=)

Véspera de feriado, dia lindo lá fora, uma lista de coisas para fazer antes de cair na estrada… Definitivamente não é o melhor momento para sentar e escrever um post. Acontece que li um texto ótimo que completou minha visão sobre uma situação que presenciei na semana passada e resolvi verbalizar.

O texto em questão é intitulado Orgulho de Ser Lésbica, mas poderia se chamar simplesmente Orgulho, pois trata de tema amplo. Serve pra qualquer ser humano com amor próprio e consciência da sua dignidade. Partindo da experiência pessoal, a autora fala sobre o processo de aceitar-se como homossexual e da postura necessária no dia a dia para afirmar-se numa sociedade onde não é plenamente aceita.

Bati os olhos nesse depoimento e de imediato me lembrei do casamento onde fui padrinho há poucos dias. Na cerimônia, encontrei uma colega de colégio que foi à festa junto da companheira e a apresentou como sua esposa a todo mundo. Andaram de mãos dadas para cima e para baixo e dançaram juntas. Achei corajoso e fino, mas essa opinião não foi unânime. Mesmo da boca de um gay, ouvi que aquilo era desnecessário e elas deveriam ser mais discretas.

Já existiu um tempo em que eu fiz coro a esse pensamento. Já considerei esse tipo de exposição ativismo exagerado. Meio envergonhado, confesso até que no lugar delas não sei se teria peito para agir do mesmo modo, muito mais por ego do que por vergonha*. Mas certo é que achei o casal bonito, e considero inacreditável que duas mulheres felizes causem tamanho incômodo.

Viver um tempo em uma sociedade muito mais evoluída na aceitação das diferenças fez com que eu crescesse um pouco. Fez perceber que se em outros lugares as coisas são diferentes, essa é uma conseqüência de ações e não comodismo. As coisas não precisam ser como são porque dá para fazer diferente. Mudar um paradigma é perceber que ter um lado panfletário não é cafona. Cafona é pagar impostos, bancar as próprias contas e aceitar ser marginalizado, trancado no gueto, visto como cidadão de segunda classe.

*(Essa passagem por si só já daria tema para um bom texto. A desenvolver.)

bombo5Intervalo na reta quase constante, flashbacks de um passado sempre presente, fechamento de um ciclo para início de nova etapa. Três momentos distintos que coincidem num espaço curto de tempo. Emoções que se cruzam e resultam numa revolução de sentimentos e sensações.

Para começar, o hiato. Depois de seis meses de namoro-casamento surge uma semana de recesso. Nada de drama ou briga. Apenas férias, um lá e outro cá. “Moderno” e “inconcebível”, chegou a utilizar como adjetivo quem avaliou olhando de fora. “Adulto”, respondi eu, com o respaldo da maturidade que ensinou a agir como gente grande para viver uma relação de verdade.

Junto desse intervalo, veio um reencontro. Doze anos de amizade e quase dois anos de distância física. Cotidianos que se cruzam com dificuldade em uma fase onde os endereços se alternam entre Sidney, São Paulo e Rio de Janeiro. Um final de semana foi pouco para inúmeros updates, risadas sinceras e assuntos adultos, modernos e inconcebíveis. O tempo escorreu rápido, consolando com a certeza de que muito ainda está por vir.

Simultâneo a isso tudo, veio o marco de uma nova fase. Seria apenas a continuidade de uma história que já se desenvolve belamente há algum tempo, não fosse a oficialização dessa relação vir marcada por uma festa de arromba. Sempre me lembrarei do casamento de uma das minhas melhores amigas conferido do altar, como padrinho. Felicidade presenciada em seu estado puro e brindada com o melhor champagne em noite emocionante.

Três histórias fundidas em uma só. Facetas do que sinto orgulho de reconhecer como meu. Verdades frescas na mente, capazes de transformar a segunda-feira nublada, com olheiras que denunciam a noite virada na insônia, em dia irretocável.

Shakira HairNo making of de um show da Shakira há uma passagem que acho ótima (pausa para assumir o lado obscuro da força – sim, eu tenho um DVD da Shakira). Em dado momento, no backstage de um show, ela olha para o próprio cabelo, puxa uma mecha da franja platinada e opaca e traça um monólogo com o espectador:

- Esse cabelo deveria chegar até aqui (faz com a outra mão uma medida que alcança o dobro do tamanho da mecha loira). Mas ele estava tão preto e tive que descolorir quatro vezes até ficar loiro desse jeito… (olha para a câmera e termina com cara de desdém) Cabelo cresce!

Durante um tempo eu e uma amiga adotamos a última frase como chavão, pois fazia boa analogia com o momento pelo qual passávamos. Ambos saíamos de histórias sentimentais meio conturbadas e andávamos de bode, mas sabíamos que a fase era transitória. A vida se reajustaria, afinal, cabelo cresce.

Apesar do deboche, no fundo a frase é esperançosa. Seja ela uma metáfora para a visão de dias melhores ou uma ponderação literal. Mesmo quando você fode dicunforça com a cabeleira feito a cantora fez, fios saudáveis voltam a surgir.

Hoje a expressão ficou na lembrança e o cabelo efetivamente cresceu. Os fios da Shakira voltaram a ser loiros e sofridos pois tem gente que não aprende. Mas os meus e os da minha amiga vão muito bem, de todas as formas possíveis.

robot friendQuando visitei Brisbane no começo do ano achei a cidade meio chata. A viagem valeu muito mais pelo tour que dei nas áreas vizinhas, conhecendo Sunshine e Goldcoast, e pela hospitalidade da amiga que me deu teto durante aquela semana. Brisbane me pareceu uma versão menor de Sydney: limpa, organizada, bonita… e ainda mais parada.

Curioso foi notar meses depois, já de volta ao Brasil, que gente com background parecido com o meu tem uma visão bem diferente da cidade. Papeando via Messenger com um amigo que trocou Sydney por Brisbane, soube que ele está bem feliz com a mudança. Resumiu as impressões dizendo que por lá se sentiu mais acolhido e encontrou gente que fez (e faz) a diferença.

Traçando um paralelo na minha mente, não pude deixar de concordar. O fator humano não é a única coisa que levo em conta quando decido onde fixar residência, mas é certo que tem um peso realmente grande. Mesmo quando a escolha se baseia em motivos mais pragmáticos, as companhias que levo comigo ou as outras tantas que conheço pelo caminho criam toda uma nova perspectiva. Uma diferença sutil que pode transformar paisagens meio inóspitas em ambientes agradáveis.

Diversas razões me mantiveram em Sydney por um ano, e algumas delas tiveram relação direta com a Sabrina, a Ranni, o Vini, o Carl, o Lee. Da mesma forma, outras tantas me fazem continuar em São Paulo hoje. E elas não podem ser plenamente descritas sem citar minha família, o Ti, a San, o Alê, a Bru, a Má, a Adélia e a Ré (entre outros).

Marcio Ramos

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