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Reguei as plantas da garagem e saí. Congestionamentos mais tarde, já no centro espírita, fui encaminhado por uma recepcionista a uma ante-sala, onde um simpático senhor me indagou sobre a minha razão para estar ali. Parei e pensei.
Em um nível mais superficial, simplesmente recebi o convite de uma amiga e aceitei. Mas isso não era resposta nem para mim, quanto mais para ele. Tive então o impulso de dizer que sempre fui aberto a novas informações e que me interesso por todos os credos (ainda que não tenha intenção de seguir algum em especifico). Refletindo melhor, porém, concluí que no meio de uma fase em que tantas coisas se transformam na minha vida eu me vejo mais aberto a possibilidades que tragam algo de positivo. Ando mais inclinado a buscar novos estímulos, diferentes perspectivas, conteúdo inédito. Foi isso que me levou ao ritual xamânico com ayahuasca na semana anterior, era a razão para estar ali no centro espírita. Indo mais além, vi que foi essa também uma das motivações para que eu minimizasse minha presença em baladas e deixasse de lado os excessos que muitas vezes às acompanham.
Falei, e como bom interlocutor, ele atentamente escutou. Dando continuidade ao papo, ele lembrou que a maioria dos visitantes chega até àquele espaço empurrado pela dor, que poucos são motivados pela curiosidade ou pela busca consciente por algum tipo de aprimoramento. Conversamos sobre história, textos sagrados, física, e meia hora passou sem sentir. Finalizando a entrevista, recebi algumas indicações de livros, fui convidado a retornar mais vezes e a tomar um passe antes de ir embora. Aceitei.
Como eu imaginava, o ritual do passe é algo simples, rápido e um tanto teatral. Mas a sensação foi boa. Deixei a sala com a alma leve, efetivamente segui paz. Fosse conseqüência do passe ou da boa conversa que o precedeu, achei tudo bastante válido.
Ao chegar em casa, olhei ao meu redor. Sem que eu me desse conta, o cuidado com as plantas do jardim voltara a fazer parte da minha rotina. Fora isso, os carros estavam limpos e as gavetas do quarto, novamente organizadas. Da mesma forma que partiram, pequenas doses de disciplina e ordem voltaram à cena. Se a abertura ao novo sinaliza uma fase mais centrada e saudável, que esse seja o rumo a tomar.
Andei durante um punhado de dias pensando em desenvolver um texto que sintetizasse um pouco do que tenho vivido ultimamente. Parágrafos tratando basicamente de transformação: a vontade de realinhar alguns pontos pendentes no campo profissional, o sol de manhã na praia que por diversas razões volta a brilhar no âmbito pessoal e um saudável reencontro com o bem estar interior.
Mudou, mudando, mudado. Pensando nessas três etapas eu divaguei e rabisquei idéias mal ordenadas. Dali nasceram pedaços de texto que acabaram não se conectando da forma como deveriam, talvez culpa de um fator inebriante da etapa de renovação. Investi mais algum tempo a deletar e editar, mas nada deu certo. Desisti.
Decidi abrir mão de domar as palavras e deixei por hora estrutura e objetividade de lado. Lembrei do mesmo texto do Drummond que parafraseei há alguns posts, em passagem da carta que escrevi com sentimento tão diferente do atual. Dessa vez faço a citação na íntegra, pois a metalinguagem dos versos não poderia ser mais pertinente.
Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
Talvez acompanhar sessões quimioterápicas do pai, terminar namoro de um ano e meio, passar por um período cheio de demandas no trabalho e iniciar um tratamento médico que me deixa deveras pilhado e ansioso, all at once, pareça insanidade. Às vezes chega a ser.
Chorei. Divaguei. Perdi o sono. Perdi a fome. Perdi peso. Perdi o animo. Mas, graças à razão (já que acredito mais nela que em Deus), não me perdi. Esgotei a energia negativa até o limite, até cansar da lamentação e reagir. Produtor do meu próprio filme, parei tudo e resolvi mudar o rumo da história. Sem roteiros de Maria do Bairro. Um Woody Allen por favor.
Olhando no detalhe, é graças à quimio que eu e meu pai andamos mais próximos do que em qualquer outra fase das nossas vidas. E os resultados do tratamento vão muito bem, obrigado. A faceta profissional bombando pode sugar muita energia, mas ao mesmo tempo engole boa parte do buraco deixado por uma relação que acaba. E quanto à ansiedade e à falta de sono… no momento são o preço do peso qualitativamente recuperado. Afinal melancolia é uma coisa, shape descuidado é outra. O copo está quase cheio.
Lendo textos sobre religiosidade e ateísmo recordei de algo que escrevi há tempos. Puxando do baú um post do blog antigo, vi que algumas coisas mudaram no meu ponto de vista e decidi atualizar o conteúdo. Com reloads e (espero) algumas evoluções, minhas novas ponderações seguem abaixo.
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APRENDI A REZAR. Aprendi o Pai Nosso, o Credo, a Ave Maria. Aprendi que o anjo da guarda protege, que Deus escuta os bons e castiga os pecadores. Aprendi a confessar e a comungar.
APRENDI A PERGUNTAR. Porque a igreja está sempre em descompasso com a razão? Porque essa religião se julga melhor que a outra? Porque as religiões separam as pessoas em grupos se seus fundamentos e ideais são parecidos?
APRENDI A RECONFIGURAR. Longe das respostas prontas de quem precisa de certezas e não quer parar para pensar. Encontrando novas perguntas. Na possibilidade de ser feliz sem ser parte de rebanho. Na busca de aprendizado positivo e reflexão.
Acredito mais em física quântica do que em religião. Dou crédito às descobertas da razão e às dúvidas que ela levanta. Talvez mais agnóstico que ateu, duvido de tudo que é desconhecido. Se há a parte positiva de cada escritura considerada sagrada, espero que ela esteja presente na minha vida apenas como repertório e inspiração. No meu altar mental figuram Jesus, Buda, Shiva e também Betinho, Da Vinci, Madonna, Bowie, Aristóteles, meus pais.
Aposto pouco nas religiões. Aposto no que elas dizem hoje o mesmo que apostaria nas explicações que há séculos ligavam trovões à ira divina e períodos menstruais a possessões diabólicas. Acho mais cabível a hipótese de um criador que também é parte da criação, parte de tudo que existe. Que está em seres vivos, planetas, componentes químicos, quarks. Parte de uma energia constantemente mutável, da qual tudo vem e para a qual tudo volta. Presente em tudo o que já existiu e segue existindo, em constante transformação. Nessa linha de pensamento às vezes divago, cogitando se o “amai-vos uns aos outros” não poderia representar nada mais que fazer o bem para uma coisa da qual também sou parte. No fim, tudo amor próprio? Pode ser, mas não tenho certeza.
Simplificando ao máximo, em momentos que não tenho saco para explicar isso tudo, resumo a história. Digo apenas que acredito no amor. Não poderia ser mais sincero.



