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Um breve hiato ficcional.
Quando Júlia conheceu Edu a química foi instantânea, mas para ela foi só isso, pele, cheiro, saliva, encaixes. Teria esquecido o assunto no fim de semana seguinte e tudo acabaria por ali se ele não fosse persistente, se demonstrando disposto e encantado.
Partiram para um segundo encontro, e depois mais um. Inicialmente ela achava difícil dizer se começava a gostar dele ou se estava encantada pela forma como ele a enxergava. Ainda que não estivesse apaixonada, pesando na balança achou que valia ver no que aquilo poderia dar. Paixão é algo efêmero, ela já sabia disso. E paixão não se escolhe, mas talvez amor sim. E como o sexo era realmente bom, resolveu tirar a prova, descobrir se amor realmente podia ser algo construído nas afinidades aos poucos reveladas, na convivência, na descoberta do mundo do outro.
Por alguns anos deu certo, e conhecendo-o cada vez mais, Júlia pôde dizer olhando nos olhos do Edu, com sinceridade, que o amava. Via defeitos, notava descompassos, mas o admirava e quase sempre estava feliz ao seu lado. Divagava às vezes, porém, se aquele amor era recíproco, se o Edu nutria sentimento parecido ou era apaixonado por algo que idealizava.
Júlia nunca acreditou muito no destino, tendia a concordar com Simone de Beauvoir e crer que “o acaso sempre tem a última palavra”. Esse poderoso acaso no qual ela acreditava colocou Edu no seu caminho, e o mesmo acaso fez com que em certo momento ela passasse por uma fase bem difícil, com diversas esferas da sua vida sendo fontes de problemas, gerando tristeza, stress e sugando energia.
Nesse período, enquanto ela julgava ser imprescindível dividir sua atenção entre diversos problemas a solucionar, ele queria atenção exclusiva. Descompasso, discussões, distanciamento. O acaso atuou e tempo respondeu.
Edu colocou um ponto final na história, e fez todo possível para o quanto antes provar aos olhos de todos que estava bem, tinha novos amores e tinha virado a página. Júlia engoliu a seco, mas racionalizou consigo mesma que se aquele não era o cara com quem podia contar quando todo restante ia mal, aquele também não era o cara com quem ela ia aproveitar os dias excelentes que ainda estariam por vir.
Ela se prometeu não olhar mais para trás, mas vacilou e quando meses depois ele a procurou, ela aceitou. Tentou, mas viu que não, não era mais ali que estava a sua felicidade. Edu pediu, lamentou, chorou, como ela antes também havia chorado. Mas não adiantava mais, pois conforme o sentimento morria a razão falou de modo mais claro, e a Júlia entendeu que amor pode até ser construído, mas não deve ter base no efêmero.
Com o tempo cada um dos dois seguiu seu caminho, fechou suas feridas e abandonou suas mágoas. A ilusão acabou e a música deles não mais tocou. Mas ao sabor do acaso, outras histórias e outros encontros surgiram e ficou tudo bem.
Tenho certa preguiça do que é constante demais. Pego bode. Quer coisa mais monótona que gente cujo universo gira sempre ao redor das mesmas coisas? Mesmas referências, pontos de vista, opiniões, gostos… um saco.
Pensei nisso após conversar por e-mail com uma prima que mora no exterior e me inspira sensações absolutamente opostas às descritas acima. Ela foi hippie, largou São Paulo para fazer trabalhos sociais em Goiás, militou para a esquerda, aprendeu inglês, esperanto e holandês, largou o Brasil para viver um grande amor, abandonou a política, se destacou trabalhando com TI em uma universidade européia. Em cinqüenta anos, um punhado de vidas dentro de uma só. E para o futuro, planos de se multiplicar em outras tantas existências possíveis.
Esses dias ela me escreveu contando de suas descobertas sobre bandas irlandesas e música celta. Aproveitou para perguntar o que ando ouvindo, pois está interessada em “ampliar horizontes musicais e saber mais do que rola por aí”. Em banda larga, amplificamos.
Coletar referências, selecionar o que importa, misturar tudo, acrescentar um ponto de vista e espremer. Até que goteje, na recita que o Cazuza nomeou: Veneno Anti-monotonia. Para tomar de uma vez feito um shot de tequila, mas tendo como conseqüência a inclinação lúcida a dar passos em novas direções em vez do entorpecimento. Minha prima provou e aprovou. Eu também.
Enquanto isso, para o que é constante demais e chato, sai essa receita e sobra a repetição do senso comum. Para embalar esse caso fico inclinado a voltar ao Cazuza, ainda que usando como trilha os versos de outra canção. Piedade senhor, piedade.

