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Hoje o ditador do Egito caiu e na prática isso pouco muda minha vida, pouco afeta minha rotina. Talvez pouco importe.
O meu cotidiano paulistano é exatamente o mesmo. Continuo buscando um emprego novo já que saí recentemente do anterior onde não estava feliz. Meu pai segue preso a uma cama, rodeado de enfermeiros, entupido de remédios e com seqüelas da sua última cirurgia. Meu namoro, que virou passado no último mês de setembro, voltou a ser presente. E nesse segundo ato sigo feliz desde o dia de Natal.
O Egito é National Geographic, Cleópatra, “fazer a egípcia”. É o rio Nilo, o deserto, são as pirâmides em um oriente médio distante. Correto? Incompleto, eu diria. O Egito é isso e um pouco mais. Falta mencionar também que de lá veio a Sabrina, a garota mais querida que conheci na Austrália. Esse é o país que ela me convidou a visitar um dia, ficando hospedado na casa da sua família e tendo-a como guia turística. É a nação sobre a qual ela me falou empolgada, contando de artistas locais, de pessoas comuns que ela conhece, detalhando regiões pouco acessíveis aos visitantes tradicionais, pontos que um dia ele pretende me mostrar.
Muito crítica, minha amiga jamais pintou sua terra natal como um país perfeito, e entre os vilões de suas histórias Mubarak sempre ocupou posição de destaque. Hoje ela comemora essa página virada, esperando que dias mais felizes surjam no horizonte.
Há algumas horas o ditador do Egito saiu de cena depois de trinta anos no poder. E, repensando, isso faz o meu dia bem mais feliz.
Quando visitei Brisbane no começo do ano achei a cidade meio chata. A viagem valeu muito mais pelo tour que dei nas áreas vizinhas, conhecendo Sunshine e Goldcoast, e pela hospitalidade da amiga que me deu teto durante aquela semana. Brisbane me pareceu uma versão menor de Sydney: limpa, organizada, bonita… e ainda mais parada.
Curioso foi notar meses depois, já de volta ao Brasil, que gente com background parecido com o meu tem uma visão bem diferente da cidade. Papeando via Messenger com um amigo que trocou Sydney por Brisbane, soube que ele está bem feliz com a mudança. Resumiu as impressões dizendo que por lá se sentiu mais acolhido e encontrou gente que fez (e faz) a diferença.
Traçando um paralelo na minha mente, não pude deixar de concordar. O fator humano não é a única coisa que levo em conta quando decido onde fixar residência, mas é certo que tem um peso realmente grande. Mesmo quando a escolha se baseia em motivos mais pragmáticos, as companhias que levo comigo ou as outras tantas que conheço pelo caminho criam toda uma nova perspectiva. Uma diferença sutil que pode transformar paisagens meio inóspitas em ambientes agradáveis.
Diversas razões me mantiveram em Sydney por um ano, e algumas delas tiveram relação direta com a Sabrina, a Ranni, o Vini, o Carl, o Lee. Da mesma forma, outras tantas me fazem continuar em São Paulo hoje. E elas não podem ser plenamente descritas sem citar minha família, o Ti, a San, o Alê, a Bru, a Má, a Adélia e a Ré (entre outros).
Cinco meses parece uma eternidade para ficar na vida de freelas. Por mais que as consultorias digam que o período de recolocação para posições decentes oscile entre seis e dez meses, por mais que a grana não esteja apertando. Faz cogitar se não valeria à pena ousar algo completamente novo, ou topar algo aquém das expectativas para fazer a roleta girar e a ansiedade diminuir.
Cinco meses é tempo suficiente para ver como a balança das comparações entre Austrália e Brasil se reajustou. Se a broxada com São Paulo foi detalhada no texto anterior, faltou dizer que a percepção em relação a Sydney também é outra. Estava mal acostumado a ponto de chamar a cidade de provinciana por todo comércio fechar às 17h. Andava ignorando que lá a qualidade de vida é para todos, assim como o por do sol, feito para se assistir na praia.
Contudo, cinco meses também é o tempo certo para reafirmar as boas razões que tive para retornar. Superando as contrapartidas, isso significa trazer bagagem nova, que dá bases para a reflexão necessária antes de alçar vôos ainda mais altos.
E por fim, cinco meses também podem passar voando. É pouco tempo para acomodar tanta gente querida que voltou a fazer parte da minha rotina. E é quase nada quando vejo que já faz esse tempo que a gente se reencontrou, desde que eu te vi lá no meio da muvuca do saguão de desembarque de Cumbica com um ramalhete enorme de rosas colombianas em punho. E ainda que hoje mais uma ação na Polícia Federal tome seu dia, vale deixar a comemoração para mais tarde, pois nossas razões para celebrar continuam aí.

Quando estava em Sydney sonhei que retornava a São Paulo.
A cidade era mais bonita, mais limpa, não tinha tanta fiação atravessando as ruas e se emaranhando no alto dos postes. Nela o meu carro tinha ar condicionado bombando, mas sem vidros obrigatoriamente lacrados para evitar assaltantes disfarçados de pedintes.
No sonho a média da população paulistana podia não ser tão instruída quanto à de um país desenvolvido, mas também considerava louca gente que associa carro blindado a status (coisa de campo de guerra) e vergonhosa a discriminação pautada em diferenças sociais. A alienação política não era a regra e cada cidadão tinha razoável noção de civilidade.
Daquela São Paulo, continuo homesick.

