(Imagem: reprodução)

Atormentada pela crise da idade avançada (que só dá as caras depois da festa mesmo), ela anoiteceu em pranto. Alternando lágrimas suaves que escorriam silenciosas com outras que caíam gordas e pesadas, tornou o fim do dia algo dramático e recluso.

Dentre seus conhecidos, gerou desconforto. Atrapalhou quem planejava aproveitar na rua a noite de calor, fez reconsiderar quem cogitava sair de casa sem precisar.

Mais uma vez, trouxe à vida os vendedores de guarda-chuvas, materializados em cada saída de metrô, a cada esquina. Não deu trégua, trazendo no fim de janeiro águas cantadas para março.

Insegura, duvidava que depois de tantos altos e baixos ainda fosse bela ou querida. E nesse questionamento úmido, não percebeu. Entre garoa e tempestade, se mostrou mais Sampa do que nunca. Intensa, pulsante, agridoce. Amada.

(*Texto escrito há exatos oito anos!)

(Imagem: Reprodução)

Em 2011 pratiquei o desapego. Não foi fácil. Na verdade diria que esse foi o pior ano da minha vida. Desapeguei na marra. Acho extremamente difícil deixar pra trás qualquer coisa da qual realmente goste, com a qual me importe. É difícil abrir a mão, soltar os dedos, deixar escapar, muitas vezes sabendo que o que parte não volta mais.

Nesse ano minha mão abriu à força. Comecei cancelando uma viagem para estar ao lado do meu pai no hospital, naquela que seria sua última passagem de ano, após sua terceira cirurgia contra o câncer que se espalhava pelo seu corpo. Como em um sorriso melancólico, eu entrei em 2011 feliz por estar ao lado dele, mas triste por sentir que aquele era o começo da nossa despedida. Simultaneamente, eu saí do meu último emprego fixo. Uma reestruturação na empresa fez com que o cartão de visitas onde se lia Gerente de Marketing deixasse de ter utilidade e a partir de então eu começasse a atuar como freelancer.

Nos oito meses seguintes meu pai esteve preso a uma cama e descobri que ser tutor legal de incapacitado é um atarefado trabalho não remunerado. Após o seu falecimento em agosto, percebi que inventário é um processo caro e demorado. E notei também que não crer em uma religião faz da superação da morte de alguém próximo responsabilidade única e exclusivamente minha.

Para completar, o namoro que começou lá no início de 2008 ia mal. Com a pressão exercida por todo o resto desandou de vez, e nenhuma das três tentativas de recomeço serviram para colar os cacos do que já estava quebrado.

No começo o espaço vazio deixado por tudo que acabou pareceu grande demais para ser preenchido. Foi doloroso. Com o tempo, porém, ele se mostrou uma oportunidade de recomeço. Como se depois de um terremoto eu parasse de olhar a destruição ao redor e notasse que escapei inteiro, me notasse vivo e de pé.

2011 me compeliu ao desapego e vivida a lição me sinto satisfeito ao deixá-lo, também, partir. Abrindo mão daquilo que foge ao meu controle sigo em frente livre, mas com uma bagagem emocional muito válida. Que venha agora 2012, mais renovador que qualquer outro ano, a ser aguardado em Copacabana de frente para o mar.

(Imagem/ilustração: reprodução)

De todos os quatro términos que tivemos, o último foi o único em que chorei durante a conversa, antes mesmo de me despedir. Pois foi o único em que a decisão foi minha, e eu sabia que era definitivo.

(Imagem: reprodução)

(* Atualização do texto que escrevi ano passado para o blog de marketing Além do Show.)

Desde que comecei a freqüentar baladas já tive vários clubes do coração, aqueles dos quais durante certo período fui cliente assíduo. Nessas fases, a identificação com a “minha” casa noturna era tão grande que eu me sentia a vontade até para aparecer por lá sozinho, sem combinar nada com ninguém. Ora porque estava mais interessado no som, no ambiente e nas novas companhias que surgiriam, ora porque sabia que as chances de cruzar amigos na pista eram enormes.

Acredito que essa relação emocional que nesses anos de vida adulta eu desenvolvi com certas baladas possui um paralelo bem direto com a devoção intensa que algumas marcas despertam em seus públicos. Conheço fiéis cujos olhos brilham diante dos logotipos da Apple, do Google ou da Prada. Em níveis mais intensos, é possível citar casos onde essa relação atinge caráter literalmente religioso. Na matéria de capa da revista Época Negócios do mês de janeiro (2010), por exemplo, o texto que trata da Nike menciona um estúdio de tatuagem americano que já gravou o logo da empresa na pele de mais de trinta pessoas.

Penso que esse tipo de conexão pode até ter seus elementos de sorte. No entanto, ponto indispensável nessas histórias é a existência em cada empreendimento de alguém com capacidade de identificar as aspirações do cliente e trabalhá-las, de forma que esse público se sinta profundamente sintonizado com as características que enxerga naquilo que consome. Assim, muita gente que compra Apple leva para casa inovação, design, modernidade. Enquanto isso, outros tantos saem das lojas da Prada com sacolas carregadas de exclusividade e status.

Voltando às referencias pessoais, das primeiras casas noturnas que adotei como minhas, lembro dos pontos marcantes de forma bastante sinestésica. Se por um lado detalhes sobre a tecnologia dos espaços e referências a estilos musicais ficaram datadas, por outro, a forma como eu me sentia naqueles lugares segue validando as escolhas. Lá eu era alguém pretensiosamente atualizado, informado, desbravando a tal cultura clubber sobre a qual eu lia na Folha de São Paulo, pertencente ao que acontecia de mais legal. Parte do que eu projetava ser, naquelas pistas eu encontrava. E cabe pontuar que isso ocorria não apenas por proatividade (ou viagem) minha, mas também pela iniciativa de algum empresário com o timming certo, capaz de indentificar bem um público potencial.

Com o tempo eu mudei, minhas aspirações mudaram e meus clubes do coração também. Tal qual em um ciclo de vida de produto, depois da maturidade veio o declínio. Por vezes lento, por vezes abrupto. Fato é que ao falar de algumas baladas, eu conseqüentemente me recordo de qual era naquela fase a minha música favorita, quais eram meus companheiros de noitadas, como estava a vida profissional, quem eu namorava, que livro lia, o que planejava…  Fazer parte da história de um cliente dessa forma é projeto que exige esforço, mas sua recompensa costuma ser bem rentável.

(Foto: Reprodução)

Reguei as plantas da garagem e saí. Congestionamentos mais tarde, já no centro espírita, fui encaminhado por uma recepcionista a uma ante-sala, onde um simpático senhor me indagou sobre a minha razão para estar ali. Parei e pensei.

Em um nível mais superficial, simplesmente recebi o convite de uma amiga e aceitei. Mas isso não era resposta nem para mim, quanto mais para ele. Tive então o impulso de dizer que sempre fui aberto a novas informações e que me interesso por todos os credos (ainda que não tenha intenção de seguir algum em especifico). Refletindo melhor, porém, concluí que no meio de uma fase em que tantas coisas se transformam na minha vida eu me vejo mais aberto a possibilidades que tragam algo de positivo. Ando mais inclinado a buscar novos estímulos, diferentes perspectivas, conteúdo inédito. Foi isso que me levou ao ritual xamânico com ayahuasca na semana anterior, era a razão para estar ali no centro espírita. Indo mais além, vi que foi essa também uma das motivações para que eu minimizasse minha presença em baladas e deixasse de lado os excessos que muitas vezes às acompanham.

Falei, e como bom interlocutor, ele atentamente escutou. Dando continuidade ao papo, ele lembrou que a maioria dos visitantes chega até àquele espaço empurrado pela dor, que poucos são motivados pela curiosidade ou pela busca consciente por algum tipo de aprimoramento. Conversamos sobre história, textos sagrados, física, e meia hora passou sem sentir. Finalizando a entrevista, recebi algumas indicações de livros, fui convidado a retornar mais vezes e a tomar um passe antes de ir embora. Aceitei.

Como eu imaginava, o ritual do passe é algo simples, rápido e um tanto teatral. Mas a sensação foi boa. Deixei a sala com a alma leve, efetivamente segui paz. Fosse conseqüência do passe ou da boa conversa que o precedeu, achei tudo bastante válido.

Ao chegar em casa, olhei ao meu redor. Sem que eu me desse conta, o cuidado com as plantas do jardim voltara a fazer parte da minha rotina. Fora isso, os carros estavam limpos e as gavetas do quarto, novamente organizadas. Da mesma forma que partiram, pequenas doses de disciplina e ordem voltaram à cena. Se a abertura ao novo sinaliza uma fase mais centrada e saudável, que esse seja o rumo a tomar.

Imagem: Reprodução

Há um ano e pouco minha mãe se separou do meu pai. Nunca chegaram ao divórcio, mas após mais de trinta anos juntos a relação se tornou insustentável. O distanciamento entre eles era crescente, assim como o mais recente caso extraconjugal dele, mais explícito. No ponto limite, ela deu um ultimato e ele saiu de casa. Parece que aconteceu há tanto tempo atrás…

Passado um ano, tudo mudou. E muito. O tumor que meu pai teve anteriormente apresentou metástases agressivas, migrando do intestino para os pulmões e depois para o cérebro. Estando esse quadro associado a uma meningite derivada de infecção hospitalar, não houve tratamento que evitasse a situação na qual ele se encontra hoje. Preso a uma cama, com poucos instantes de uma semi-lucidez sonolenta, quase sem palavras, sem capacidade de comer, de usar o banheiro, de conversar.

Onde está a cama dele? No quarto da minha mãe. Depois de tudo, ele precisou voltar. Sem saúde, sem companhia exceto a dos filhos e de enfermeiras contratadas, ele precisou dela. E ela revirou todos os móveis do próprio quarto, instalou uma cama hospitalar no meio de tudo, chamou a responsabilidade para si. Há enfermeiras e cuidadoras que se revezam e há médicos do home care que o acompanham (junto das visitas, transformam o quarto dela em uma segunda sala de estar). Mas quem dorme cinco horas por noite e acorda a qualquer gemido dele, nem que seja só para segurar a sua mão e dizer que ele nunca estará só, é a minha mãe.

Já a admirava por tantas outras coisas que não cabem em lista, nem cabem na minha memória. Hoje a admiro também por isso. Pelo altruísmo, pela compaixão, pela caridade, pelo amor. Por ser aos meus olhos um exemplo do que existe de bom e sublime no ser humano.

Feliz dia das mães sempre.

Ilustração: Banksy/ Reprodução

Hoje o ditador do Egito caiu e na prática isso pouco muda minha vida, pouco afeta minha rotina. Talvez pouco importe.

O meu cotidiano paulistano é exatamente o mesmo. Continuo buscando um emprego novo já que saí recentemente do anterior onde não estava feliz. Meu pai segue preso a uma cama, rodeado de enfermeiros, entupido de remédios e com seqüelas da sua última cirurgia. Meu namoro, que virou passado no último mês de setembro, voltou a ser presente. E nesse segundo ato sigo feliz desde o dia de Natal.

O Egito é National Geographic, Cleópatra, “fazer a egípcia”. É o rio Nilo, o deserto, são as pirâmides em um oriente médio distante. Correto? Incompleto, eu diria. O Egito é isso e um pouco mais. Falta mencionar também que de lá veio a Sabrina, a garota mais querida que conheci na Austrália. Esse é o país que ela me convidou a visitar um dia, ficando hospedado na casa da sua família e tendo-a como guia turística. É a nação sobre a qual ela me falou empolgada, contando de artistas locais, de pessoas comuns que ela conhece, detalhando regiões pouco acessíveis aos visitantes tradicionais, pontos que um dia ele pretende me mostrar.

Muito crítica, minha amiga jamais pintou sua terra natal como um país perfeito, e entre os vilões de suas histórias Mubarak sempre ocupou posição de destaque. Hoje ela comemora essa página virada, esperando que dias mais felizes surjam no horizonte.

Há algumas horas o ditador do Egito saiu de cena depois de trinta anos no poder. E, repensando, isso faz o meu dia bem mais feliz.

Foto: Gregory Colbert / Reprodução

Uma virada de ano inusitada e talvez a menos feliz dentre todas que eu me recordo. Não que esse ano a data tenha sido duramente triste, mas na comparação com tantos outros réveillons badalados, 2011 aportou aqui de modo bem menos festivo que o planejado.

Abri mão da hospedagem paga e da lista vip de festas que rolaram (e rolarão) na ensolarada Floripa. Deixei de lado também de um possível plano B que atende pelo nome de Rio de Janeiro, com abrigo na casa de amigo querido e a companhia de metade dos festeiros que conheço. Assim, pela primeira vez em trinta anos de vida encarei um réveillon em Sampa, longe do mar, dos fogos, dos drinks, da jogação.

Papai está a cada dia mais doente e, sendo realista, existe uma chance razoável de que essa seja a última virada de ano dele. Nada mais coerente, ora pois, que estar ao seu lado nesse momento, ainda que num quarto pálido de hospital. E se há melancolia em assistirmos juntos à queima de fogos pela TV, há ternura em poder acariciar o cabelo ralo e desejar com fé que belos dias de alegrias compartilhadas ainda venham pela frente.

Um sinal de que perspectivas positivas seguem pairando no horizonte já foi recebido. Há três dias eu vinha me sentido absolutamente travado por uma dor aguda na lombar, conquistada na academia com excesso de peso e falta de cautela. Hoje melhorei bastante. Não sei se foi graças à terceira injeção na terceira visita ao pronto socorro, se foi mérito das massagistas que me retorceram inteiro, se entrou em ação a medicação prescrita ou se foi resultado do curandeirismo ao qual dei atenção em momento de dor extrema – disseram-me que era uruca e mandaram que eu esfregasse uma estatua de Nossa Senhora nas costas. Fiz o recomendado e coloquei a santa de volta no criado mudo ao meu lado. Segundos depois ela caiu no chão e se espatifou. Fato racionalmente explicável, mas de toda maneira espantoso.

Coube no pacote do dia certa dose de inesperada superstição, por isso me permito manter a linha desejando que com a estátua quebrada fiquem para trás todas as energias ruins e os problemas. Se em algum momento pegou, aqui olho gordo não gruda mais. Muita luz em 2011.

Imagem: Reprodução / Escher

Atuar de maneira linear pode ser uma arte, afinal manter-se fiel por longos períodos a um conjunto de preceitos requer constância e foco (além de certa dose de tédio). Mas se inteligência pressupõe capacidade analítica e raciocínio aprofundado inexiste sem questionamento, é possível ser inteligente sendo sempre constante? Indagado em uma edição antiga do Manhattan Connection sobre suas imprevisíveis e intempestivas considerações, Paulo Francis retrucou ao seu estilo: “oras, mas qualquer pessoa inteligente é contraditória!” Será?

Tenho discernimento suficiente para dar crédito a pensamentos coerentes e bem embasados, mas à parte disso admito que sempre tive atração pelo controverso. O paradoxal sempre me pareceu uma caixa recheada de segredos surpreendentes, e com a visão adulta veio a capacidade de diferenciá-lo dos factóides superficiais que nos bombardeiam no dia-a-dia e são mais divertidos que sinceros. Interesso-me pelo escritor Beat que se tornou um velho reacionário, pelo ativista de esquerda que virou um crítico cultural de direita, admiro o músico folk que trocou o violão pela guitarra e assim “traiu seu movimento”. Em muitos casos, o meu interesse pelas realizações de determinado personagem rivaliza fortemente com o encanto que tenho pelas suas guinadas e motivações secretas. Porque estes instantes existem nas vidas daqueles que, em dado momento, se dispõem a mudar tudo. Celebro o choque de conceitos, gosto do vento das revoluções, estejam elas ao meu redor ou em uma esquina da minha mente.

Acredito que em essência aqueles que subvertem os próprios paradigmas têm, como pré-requisitos, a liberdade e o pensamento independente. Permitir-se certo grau de contradição exige considerar novas possibilidades, seja levando em conta referências díspares, informações novas ou fatos recontextualizados. E essa multiplicidade é questionamento enriquecido, que se opõe à superficialidade.

Ainda que enxergue na sabedoria momentos de estabilidade, tendo a compreender e concordar com Paulo Francis. Pois o controverso é complexo, é rico, e essa pluralidade dá base para um real raciocínio analítico. Mas se alguém quiser discordar de mim com bons argumentos, sinta-se em casa.

Foto: arquivo pessoal / Por de sol no Leblon num dos primeiros dias de 2006

Não tem vontade, não faça e ponto. Nunca faça nada que você não quer. Foi o que o amigo disse há vários anos e gravei como um dos mantras a serem revisitados quando pertinente. Tal qual segue.

O feriado em Sampa prometia. Muitos conhecidos e amigos de fora estavam para chegar à cidade. O roteiro de festas oferecia uma seqüência de noites badaladas (tardes e manhãs também) e o meu nome em algumas listas restritas já garantia de antemão algumas regalias. Mas eu dispensei.

Aparentemente tomando uma decisão sem muito fundamento, peguei o carro e sozinho segui pela Dutra rumo ao Rio. Dei de cara com o Redentor encoberto por nuvens, em céu que durante toda estadia transitou entre nublado e chuvoso. Sem colocar o pé na areia, acordei tarde todos os dias e peguei apenas duas baladas, nenhuma delas muito cheia.

Pode parecer que nada disso faz sentido. Mas era exatamente disso que eu precisava.

Não queria estar em São Paulo e por isso parti. Ainda que o feriado aqui prometesse reencontro com vários amigos, incluía cruzar constantemente com gente que eu não tinha interesse em ver. Além disso, na outra ponta da estrada o Rio surgia no horizonte como um saudável intervalo nas preocupações com a saúde do meu pai.

Fui. Ao volante, bem acompanhado pelo ar condicionado glacial e por boa música. Em Ipanema, recepcionado pelo amigo-irmão das antigas. E na pista, rodeado por novos amigos que fizeram de festas não tão bombadas diversão garantida. Mais que evitar o que não gosto, só fiz o que quis.

Marcio Ramos

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